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Um pouco de minha historia… ( mais uma da vovó Lucinda)

09 abr

Vovó Lucinda me ensinou muito… Muito mais do que ela possa imaginar … Vivia dizendo frases de efeito, sábias… E sempre no momento certo. Era impressionante a sabedoria dela. Se hoje eu me considero uma boa mãe devo a ela. Com o que aprendi com ela, com fatos como o que vou relatar agora.

Minha irmã e eu brigávamos muito, embora nos amassemos muito também, Márcia era o que eu queria ser para mamãe, e eu era o que Márcia queria ser para papai…

Quando escrevi a minha primeira poesia e fui mostrar pra Márcia ela ficou enciumada e me acusou de ter copiado dos escritos de mamãe, eu tinha apenas nove anos. Quase morri de raiva… Avancei nela e comecei a bater, xinguei de cadela, filha d……, bis……, tudo o que vinha na mente…

Ela no meio de minha agressão perguntou:

__Eu sou filha do que?

__ Da puta ___eu respondi tomada pela ira, eu nem sabia o que estava falando, não tinha entendimento da coisa, senti alguém me tocando o ombro, e me virei… Era mamãe. Foi o primeiro tapa no rosto que tomei. Minha bochecha queimava, minha alma ardia. Márcia arrependida correu e me abraçou, chorando comigo, voltou-se contra mamãe. Que chorava também. Não sei até hoje em quem o tapa doeu mais.

Naquela tarde fugi de casa. Levando duas calcinhas, a minha conga branca (uma espécie de tênis) e uma blusa de frio. Fugi… Pra casa de vovó.

Ao entrar fui direto pro quarto de madeira que ficava no quintal da casa , com certeza vovó estava lá, fazendo a novena pra tio Eca parar de beber. Entrei e fiquei sentada no toco que ela tinha no chão, metade tijolo, metade batido do quarto de orações dela. Chorando esperei ela terminar a reza.

Vovó se virou pra mim e me perguntou o que tinha acontecido. Eu contei.

__Sua mãe te bateu no rosto?

 __ Sim… 

___ No rosto? (ela insistiu na pergunta por quatro vezes, por quatro vezes eu afirmei) ela não me disse nada, pegou o terço e voltou-se pro Menino Jesus de Praga e iniciou uma nova novena.

Eu fiquei ali esperando ela terminar o terço. Depois ela se levantou me tomou pelas mãos e só quando entramos em casa ela viu a minha malinha.

__Deixa eu morar com a senhora vovó. Mamãe não gosta de mim.

Ela sorriu me abraçou e chorou comigo sussurrando em meu ouvido :

___Sua mãe te ama Marluci, sua mãe te ama.

Eram 6 horas da tarde quando papai chegou de carro com mamãe e Márcia. Mamãe nervosa entrou perguntando se eu estava ali.

Vovó fazia o fuxico pra seu novo tapete ouvindo a Hora do Brasil (um programa de radio) .

Papai entrou em seguida, corri pra ele e o abracei.

Vovó largou o fuxico e disse:

___ BETINHO, VAI COM MARCIA PARA A SALA. HENA VOCÊ E MARLUCI VEM COMIGO.

Era uma ordem. Não tinha como não obedecer.

Fomos para o quarto de tio Carlinhos e tio Tuca. Eu me sentei na cama indicada por vovó (a de tio Tuca) e mamãe na cama de tio Carlinhos. A cama de tio Carlinhos e de Tio Tuca ficavam no quarto que ficava entre a varanda onde fazíamos as refeições e o quarto de vovó. Eu e mamãe, sentadas ressentidas uma com a outra, olhando nos olhos, chorando uma em frente da outra. .

Vovó entrou no quarto dela e de lá veio com o XALE PRETO. Eu tremi nas bases, mamãe se levantou num ímpeto e tão rapidamente quanto levantou despencou na cama com o tapa que recebeu no rosto. Eu corri para socorrê-la, tal qual Márcia fez comigo. Vovó parada me deu a primeira lição do que é a educação.

___Filho é como trepadeira, a gente educa de pequeno. Se você quer que a trepadeira vá pra esquerda você finca o pau, amarra-a e ela vai; se você quer que vá pra direita, fica o pau, a amarra e ela vai… Mas você tem que fazer isso quando a trepadeira é brotinho ainda. Se você não amarrar nada, não mostrar a direção, a trepadeira não tem rumo pra seguir, desce, se mistura com as ervas daninhas e de repente não é mais trepadeira …É MATO. Parou …olhou pra mamãe e completou. Você é o que eu te ensinei a ser, você seguiu a direção que eu te indiquei, se você acerta é porque eu acertei, se você erra, é porque eu errei. É assim que a coisa funciona. É assim que a família funciona. Eu não me lembrava de ter batido em seu rosto, precisava fazer isso pra poder pedir desculpas a minha neta pelo o que você fez. E virou-se pra mim.

__Marluci, sua mãe te ama, eu sei, eu conheço minha filha, ela esta dividida entre o amor e o ciúmes que ela sente de sua inteligência, sim… Porque ela sempre foi o gênio desta família, ela não parou pra perceber que você puxou a ela, assim como ela puxou seu avô. Estou te pedindo como avó e como mãe. Perdoe sua mãe. Nunca bata no rosto de um filho. Ela só bateu em você porque já apanhou de mim assim também. O Erro é meu que ensinei errado pra ela. Perdoe minha filha.

Voltou para o quarto dela, tirou o XALE PRETO guardou no guarda roupa e foi pra sala ao encontro de papai e de Márcia.

__Betinho, pode levar sua mulher e sua filha, isso não vai mais se repetir.

Foi a ultima vez que mamãe levantou a mão pra mim. Desde então passou a ser conversa, sermão seguido de castigo, algo que eu gostava e que me era proibido pelo numero de erros que tivesse cometido em reincidências.

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1 comentário

Publicado por em 9 de abril de 2010 em MEUS ESCRITOS

 

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Uma resposta para “Um pouco de minha historia… ( mais uma da vovó Lucinda)

  1. Rosaria

    14 de abril de 2010 at 18:50

    Marluce, por alguma razão da vida ,apesar,de termos nos afastado (ainda não entendi porque)vc continua no meus contatos do msn,e li sua cronica ,sobre tia Lucinda…e chorei….revi aquela casa ,aquela quartinho nos fundos ,aquela rosto bondoso da tia Lucinda,o aroma bom de sua cozinha…que saudade da minha infancia….Parabéns pela linda cronica..um beijo com saudades .Rosária

     

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