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Arquivo mensal: setembro 2012

A História do Hino de Corumbá


Resolvi escrever, eternizar os fatos através da palavra escrita para que a História não se perca na própria História.

Nem sempre a Educação é correta, confiável e principalmente versa sobre a verdade dos fatos.

Sempre cantamos um hino que nunca foi hino. Um hino que só foi reconhecido como tal, quase um século depois de sua criação.

Para falar aos corumbaenses de alma, coração e nascimento preciso voltar no tempo e no espaço.

Eu tinha entre 10 e 11 anos de idade e fui escalada para cantar o hino de Corumbá nas festividades da escola GENIC onde eu estudava, na missa em ação de graças, onde seriam premiadas as melhores alunas do mês de setembro.

Eu cantava o hino no meu quarto, quando ouvi a voz de meu avô Carlos de Castro Brasil na sala de nossa casa na rua Tiradentes ( entre a América e a Cuiabá). Corri para a minha “enciclopédia viva”:

__ Vovô, o que significa MACHETADO DE BONINAS?

E ele:

__ Boninas são flores pequenas que aparecem em prados, em relvas… Machetados é uma expressão lusitana para traduzir, cheio, transbordante.

Confesso que fiquei com a pergunta “ e o que é lusitano?” presa na garganta. Apenas olhei meu avô com o sorriso mais amarelo que tinha enquanto ele sorria  a me dizer: __ Lusitano é de Portugal. Essa é uma expressão que os portugueses usam. Mas você pode dizer que o céu do pantanal também é machetado de estrelas, o rio esta machetado de piranhas,e essa cabecinha está machetada de idéias… ( falou isso pegando no meus cabelos).

Vovô sabia tudo. Tudo! Tudo!.

_ Eu vou cantar o Hino de Corumbá na festa da escola.

_ Não vai.

Espanto de minha parte: _ Vou sim, vô, Mamãe deixou.

E ele: sua mãe deixou você cantar a MARCHA A CORUMBA e não o Hino de Corumbá. Corumbá não tem hino.

Fiquei confusa…

__ Mas a irmã Lurdes Falou que é o hino._ argumentei.

E ele:

__ Irmã Lurdes esta ensinando o que ensinaram pra ela. Por isso que a gente tem que ter cuidado com o que aprende. Se a gente aprende errado, sai ensinando errado.

Puxei a cadeira e sentei ao seu lado.

Então me conta como é o certo:

_ Eu, Levino Albano e Luiz Feitosa Rodrigues estudávamos no Rio de Janeiro. E teve um concurso de marchas de carnaval. Ganhou o concurso a marchinha mais feia. (e rimos ___ vovô, apesar de sisudo era tão dócil comigo)__ a quefoi classificada em terceiro lugar que os cariocas gostaram mesmo é assim : CIDADE MARAVILHOSA, CHEIA DE ENCANTOS MIL, CIDADE MARAVILHOSA CORAÇÃO DO MEU BRASIL. Os cariocas gostaram tanto que saíram do teatro cantando essa marcha e até hoje eles cantam e falam que esse que é o hino de lá, mas não é.

Eu olhava vovô Castro tentando entender o que vinha por ali; e ele continuou:

_ Luiz Feitosa resolveu mudar a letra de uma das marchinhas que ficou entre as finalistas mas que não recebeu premio. Adotamos essa então como a musica de nosso bloco de carnaval lá no Rio de Janeiro. Foi assim que nasceu CORUMBÁ DESTES MEUS SONHOS E DOS MEUS PRIMEIROS DIAS. Quando voltamos para Corumbá trouxemos a marchinha conosco e cantamos aqui. O povo gostou. E aconteceu aqui o que aconteceu no Rio de Janeiro . Mas não é o Hino… é como se fosse mas não é. È uma paródia. A lei não permite que seja um hino. Pra ser hino tem que mudar o andamento, ( olhou para mim e entendeu a pergunta no ar, completou então) o ritmo. O povo gostou e começaram a cantar nas festividades da cidade. E foi assim…

Ah!… Então estava explicado porque nunca aparecia o nome do compositor da musica, só da letra. E vovô ainda completou:

__O Levino Albano escreveu a partitura para os músicos da banda daqui poderem ler e acompanhar nosso bloco, mas ele não é o compositor da melodia e nem nós sabemos quem é, ninguém gravou o nome do compositor.

Passei quase que a minha adolescência, juventude e parte da maturidade tentando convencer meus professores de que Corumbá não tinha um hino.

Muitos anos se passaram e eu já era mãe, vovô já tinha partido para a pátria espiritual quando Dr. Salomão Baruki convidou-me para apresentar juntamente com a Banda Municipal Manuel Florêncio, sob a batuta do Maestro José Marques, no dia da inauguração do IESPAN ( Faculdade  pela Família Baruki, em Corumbá), o verdadeiro hino de Corumbá, até então totalmente desconhecido dos corumbaenses.

Qual não foi a minha surpresa quando Dr. Salomão esclareceu que aquela era a única proposta de hino que Corumbá já tivera, mas que ainda não tinha sido aprovado. Estava parado na Câmara de Vereadores . Na época nenhum edil sabia ler partitura para poder dar o aval. E Corumbá, continuava sem hino…

N década de 2010, no primeiro mandato do prefeito Ruiter Cunha de Oliveira, fui convidada para cantar no lançamento do livro CURIÓ, do escritor e compositor corumbaense Francisco Inácio da Silva Neto ( o Tim). E para a minha surpresa, pediram-me que cantasse Cantiga de Amor a Corumbá (composição de Tim e de Clio Proença) e também o Hino de Corumbá.(Na época eu já tinha conhecimento da lei que ampara o DOMINIO PÚBLICO).

Antes de iniciar a minha apresentação olhei nos olhos do Prefeito Ruiter Cunha de Oliveira e contei a história na frente de convidados, jornalista  e familiares do Tim. Fui categórica, irreverente, taxativa, quase atrevida.

__ Prefeito. Ladario tem hino, Terenos tem hino, Bonito tem hino. Corumbá não tem. Isso é uma vergonha. Oficialmente, nós não temos hino! Não ter hino é como ter nome e não ter sobrenome. Isso porque não tivemos um prefeito que tivesse a coragem, que tivesse PEITO  de CANETAR num decreto municipal que esse seria o hino a partir de então.

O Prefeito olhou-me de uma maneira que nunca vou esquecer. Acho mesmo que foi ali, naquele momento que eu passei a admira-lo de verdade.

Dois meses depois recebemos nas escolas o decreto municipal DETERMINANDO A MARCHA A CORUMBÁ COMO HINO DE CORUMBÁ. Finalmente o Triangulo de Glória de um povo (sua bandeira, seu brasão e seu hino) estava completo na história de minha cidade.

Hoje eu me sinto meio “mãe” dessa criança. Sei que não escrevi nem a letra nem a música, mas me sinto responsável pelo reconhecimento da paternidade presumida: O gosto, a preferência do Povo.

Quando olho o Prefeito Ruiter, quando ouço o hino, sendo cantado COMO HINO  sinto que teremos algo em comum para sempre. Enquanto a minha cidade tiver história e Corumbaenses que amem essa terra como nós amamos.

Essa é a história.

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Publicado por em 8 de setembro de 2012 em MEUS ESCRITOS

 

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CARTA ABERTA AO HINO DE CORUMBÁ


Hoje quero falar com você Hino a Corumbá.

Quero te pedir perdão… estou envergonhada pela forma como te trataram, pela roupagem a que te impuseram usar…Estou com a alma dolorida, Hino querido. Estou com a vista desgastada pela total falta de amor e de respeito ao que de mais puro e belo você representa para nossa cidade

Lembro-me  de sua declaração de amor. Você cheio de emoção e orgulho disse :Corumbá destes meus sonhos e dos meus primeiros dias…

Afirmo querido Hino, que ainda sinto o calor , como raio de saudade dentro do meu coração todas as vezes em que me lembro das festividades do aniversário da cidade quando descíamos a Frei Mariano cantando seus versos entre gritinhos de alegria e de esperança num futuro de realizações e de progresso cultural, educacional … vivencial mesmo.

Lembro-me, meu querido Hino que você sempre se referia aos dias em nossa cidade como : Os teus dias tão risonhos,tem pra mim tanta alegria; até a lua com fulgor , parece não ter vontade de deixar este torrão.

Ah… hino… Ah!,Corumbá, eu quero ter sob o teu seu céu tão brilhante, Feliz viver. Mas como?.. Eu me pergunto Como?

Se mesmo os teus filhos, mais diletos, aqueles que deveriam te ovacionar, aqueles que deveriam propagar as tuas belezas invertem  a mensagem de teus versos, profanam as suas rimas com mazelas vizuais na vã e infeliz tentativa de desfazer o que a teu louvor foi feito? Como querido Hino? Como?

Eu olho a cidade que você representa, querido Hino e vejo encantos primorosos nas verdes colinas, vejonas águas serenas  do rio que te banha e  no céu onde o cruzeiro cintilante sempre está ,vejo a mão do criador, vejo a visão do futuro no brilho estrelar que Pedro de Medeiros tão bem descreveu.

Ah! Hino querido…Vejo em teus prados tão mimosos, marchetados de boninas, vejo em  tuas noites amenas, em teu luar tão fagueiro,  vejo que  tens encantos Corumbá!

E é por isso que estou aqui entrando em contato com você querido hino. Quero te pedir perdão! Perdoe a falta de respeito!.Perdoe a falta de bom senso! Perdoe a falta de criatividade! Perdoe , querido hino….

Tenho certeza que quem te feriu de forma tão infeliz também, intimamente canta.: Corumbá, eu quero ter. Sob o teu seu céu tão brilhante Feliz viver.

No inicio pode parecer difícil HINO querido. Mas lembre-se… aqui na terra que você representa tão divinamente e com tanta propriedade quando teus horizontes à frouxa luz do poente se matizam de mil cores e de saudade fica presa nossa alma juvenil. Aqui mesmo  nesta terra rendilhada de altos montes tendo aos pés àguas silentes, aqui a  bela terra dos amores, aqui  temos a certeza de que a nossa amada cidade sabe que no seu coração e na alma dos corumbaenses valorosos, todos dizemos:  Corumbá és a princesa do ocidente do Brasil!

 
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Publicado por em 4 de setembro de 2012 em MEUS ESCRITOS

 
 
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