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A História do Hino de Corumbá

08 set

Resolvi escrever, eternizar os fatos através da palavra escrita para que a História não se perca na própria História.

Nem sempre a Educação é correta, confiável e principalmente versa sobre a verdade dos fatos.

Sempre cantamos um hino que nunca foi hino. Um hino que só foi reconhecido como tal, quase um século depois de sua criação.

Para falar aos corumbaenses de alma, coração e nascimento preciso voltar no tempo e no espaço.

Eu tinha entre 10 e 11 anos de idade e fui escalada para cantar o hino de Corumbá nas festividades da escola GENIC onde eu estudava, na missa em ação de graças, onde seriam premiadas as melhores alunas do mês de setembro.

Eu cantava o hino no meu quarto, quando ouvi a voz de meu avô Carlos de Castro Brasil na sala de nossa casa na rua Tiradentes ( entre a América e a Cuiabá). Corri para a minha “enciclopédia viva”:

__ Vovô, o que significa MACHETADO DE BONINAS?

E ele:

__ Boninas são flores pequenas que aparecem em prados, em relvas… Machetados é uma expressão lusitana para traduzir, cheio, transbordante.

Confesso que fiquei com a pergunta “ e o que é lusitano?” presa na garganta. Apenas olhei meu avô com o sorriso mais amarelo que tinha enquanto ele sorria  a me dizer: __ Lusitano é de Portugal. Essa é uma expressão que os portugueses usam. Mas você pode dizer que o céu do pantanal também é machetado de estrelas, o rio esta machetado de piranhas,e essa cabecinha está machetada de idéias… ( falou isso pegando no meus cabelos).

Vovô sabia tudo. Tudo! Tudo!.

_ Eu vou cantar o Hino de Corumbá na festa da escola.

_ Não vai.

Espanto de minha parte: _ Vou sim, vô, Mamãe deixou.

E ele: sua mãe deixou você cantar a MARCHA A CORUMBA e não o Hino de Corumbá. Corumbá não tem hino.

Fiquei confusa…

__ Mas a irmã Lurdes Falou que é o hino._ argumentei.

E ele:

__ Irmã Lurdes esta ensinando o que ensinaram pra ela. Por isso que a gente tem que ter cuidado com o que aprende. Se a gente aprende errado, sai ensinando errado.

Puxei a cadeira e sentei ao seu lado.

Então me conta como é o certo:

_ Eu, Levino Albano e Luiz Feitosa Rodrigues estudávamos no Rio de Janeiro. E teve um concurso de marchas de carnaval. Ganhou o concurso a marchinha mais feia. (e rimos ___ vovô, apesar de sisudo era tão dócil comigo)__ a quefoi classificada em terceiro lugar que os cariocas gostaram mesmo é assim : CIDADE MARAVILHOSA, CHEIA DE ENCANTOS MIL, CIDADE MARAVILHOSA CORAÇÃO DO MEU BRASIL. Os cariocas gostaram tanto que saíram do teatro cantando essa marcha e até hoje eles cantam e falam que esse que é o hino de lá, mas não é.

Eu olhava vovô Castro tentando entender o que vinha por ali; e ele continuou:

_ Luiz Feitosa resolveu mudar a letra de uma das marchinhas que ficou entre as finalistas mas que não recebeu premio. Adotamos essa então como a musica de nosso bloco de carnaval lá no Rio de Janeiro. Foi assim que nasceu CORUMBÁ DESTES MEUS SONHOS E DOS MEUS PRIMEIROS DIAS. Quando voltamos para Corumbá trouxemos a marchinha conosco e cantamos aqui. O povo gostou. E aconteceu aqui o que aconteceu no Rio de Janeiro . Mas não é o Hino… é como se fosse mas não é. È uma paródia. A lei não permite que seja um hino. Pra ser hino tem que mudar o andamento, ( olhou para mim e entendeu a pergunta no ar, completou então) o ritmo. O povo gostou e começaram a cantar nas festividades da cidade. E foi assim…

Ah!… Então estava explicado porque nunca aparecia o nome do compositor da musica, só da letra. E vovô ainda completou:

__O Levino Albano escreveu a partitura para os músicos da banda daqui poderem ler e acompanhar nosso bloco, mas ele não é o compositor da melodia e nem nós sabemos quem é, ninguém gravou o nome do compositor.

Passei quase que a minha adolescência, juventude e parte da maturidade tentando convencer meus professores de que Corumbá não tinha um hino.

Muitos anos se passaram e eu já era mãe, vovô já tinha partido para a pátria espiritual quando Dr. Salomão Baruki convidou-me para apresentar juntamente com a Banda Municipal Manuel Florêncio, sob a batuta do Maestro José Marques, no dia da inauguração do IESPAN ( Faculdade  pela Família Baruki, em Corumbá), o verdadeiro hino de Corumbá, até então totalmente desconhecido dos corumbaenses.

Qual não foi a minha surpresa quando Dr. Salomão esclareceu que aquela era a única proposta de hino que Corumbá já tivera, mas que ainda não tinha sido aprovado. Estava parado na Câmara de Vereadores . Na época nenhum edil sabia ler partitura para poder dar o aval. E Corumbá, continuava sem hino…

N década de 2010, no primeiro mandato do prefeito Ruiter Cunha de Oliveira, fui convidada para cantar no lançamento do livro CURIÓ, do escritor e compositor corumbaense Francisco Inácio da Silva Neto ( o Tim). E para a minha surpresa, pediram-me que cantasse Cantiga de Amor a Corumbá (composição de Tim e de Clio Proença) e também o Hino de Corumbá.(Na época eu já tinha conhecimento da lei que ampara o DOMINIO PÚBLICO).

Antes de iniciar a minha apresentação olhei nos olhos do Prefeito Ruiter Cunha de Oliveira e contei a história na frente de convidados, jornalista  e familiares do Tim. Fui categórica, irreverente, taxativa, quase atrevida.

__ Prefeito. Ladario tem hino, Terenos tem hino, Bonito tem hino. Corumbá não tem. Isso é uma vergonha. Oficialmente, nós não temos hino! Não ter hino é como ter nome e não ter sobrenome. Isso porque não tivemos um prefeito que tivesse a coragem, que tivesse PEITO  de CANETAR num decreto municipal que esse seria o hino a partir de então.

O Prefeito olhou-me de uma maneira que nunca vou esquecer. Acho mesmo que foi ali, naquele momento que eu passei a admira-lo de verdade.

Dois meses depois recebemos nas escolas o decreto municipal DETERMINANDO A MARCHA A CORUMBÁ COMO HINO DE CORUMBÁ. Finalmente o Triangulo de Glória de um povo (sua bandeira, seu brasão e seu hino) estava completo na história de minha cidade.

Hoje eu me sinto meio “mãe” dessa criança. Sei que não escrevi nem a letra nem a música, mas me sinto responsável pelo reconhecimento da paternidade presumida: O gosto, a preferência do Povo.

Quando olho o Prefeito Ruiter, quando ouço o hino, sendo cantado COMO HINO  sinto que teremos algo em comum para sempre. Enquanto a minha cidade tiver história e Corumbaenses que amem essa terra como nós amamos.

Essa é a história.

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3 Comentários

Publicado por em 8 de setembro de 2012 em MEUS ESCRITOS

 

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3 Respostas para “A História do Hino de Corumbá

  1. joanita

    9 de setembro de 2012 at 14:05

    Ao clamar publicamente ao Prefeito a necessidade de um hino para Corumbá torna se a autora intelectual e mecenas do reconhecimento da marcha como hino ao canta ló pela primeira vez, como hino, tornou se a arranjadora musical ;
    Parabéns e estude estas possibilidades…
    Para que a nossa cultura tenha esta estória como referencia da obra literária e musical do nosso hino uma referencia pessoal é o começo do fio da meada. É uma ideia… Se der certo me convide para execução em evento público e comemorativo… Oxalá seja possível

     
  2. Cleber de Oliveira Jr

    12 de setembro de 2012 at 13:25

    Minha querida Marluci. Ler parte dessa história contada por você, me faz sentir mais orgulho de ser corumbaense. Eu sempre cantei, desde criança, essa música porque os meus ouvidos enviavam, como enviam até hoje ao meu coração, tons fortes de emoção quando sentiam a melodia pura, a poesia simples de corações apaixonados. Eu não consigo cantar ou escutar sem que uma lagrima molhe meu rosto. Sempre acreditei que a composição (letra e música) eram do Luis Feitosa Rodrigues. Muito tempo depois, meu padrinho Marco Aurélio me falou que o Levino de Almeida fez a letra, ou a música junto com o Luis Feitosa, mas eu não sabia que o seu avô, a quem eu admirava na minha infância, também tinha participação. A sua descrição sobre os fatos, trazem ao nosso conhecimento, mais uma importante informação e eu te agradeço por isso, pois como seu amigo, fâ e admirador, reconheço na sua explanação, a vocação de proporcionar a todos os corumbaenses, as emoções que emanam do amor que sentimos por essa terra. Vou falar mais sobre esse sentimento em meus artigos. Um beijo e que Deus te abençoe.

     
  3. Evelin Maccarini

    11 de outubro de 2012 at 18:13

    Sen-sa-ci-o-nal!!! E todos que vivem neste tempo, e puderem conhecer estes fatos tão particulares registrados aqui por vc, são agora testemunhas da história do “Hino à Corumbá”. Obrigada por compartilhar conosco. Bjs!

     

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