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A BEATA DA CAPELA

13 nov

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Nunca um dia era diferente do outro, era sempre a mesma coisa. Ela orava fervorosamente todas as manhãs naquela mesma capela. Mal o dia amanhecia e a “beata da capela” já cruzava o jardim da Independencia em Corumbá para  alcançar a rua 13 de junho e depois a Antonio Maria e finalmente junto ao antigo ponto de ônibus encontrar a capelada Matriz Nossa Senhora da Candelária.

Os aposentados frequentadores da praça da Independencia já sabiam que ela iria cruzar por ali, saída não se sabede onde,visto que bem em frente à praça tinha a igreja Nossa Senhora Auxiliadora, mas a esta ela não frequentava… tinha que ser a Matriz. E os “desocupados” até já conheciam o “toc-toc” de seus passos ligeiros e miúdos.

Não houve um só dia de calor ou frio, de tempestade ou vento forte que a privasse do ritual. Alguns se perguntavam se “ a beata da capela” seria um ser vivente desta ou de outra dimensão…

O que parecia é que ela rezava fervorosamente todas as manhãs quando o dia ainda bocejava sonolento suplicando por um milagre que nem ela poderia demensionar  a urgência e a importância…

Impressionava o olhar perdido com que ela passava pelos “madrugadores-do-fazerabsolutamentenada” e parecia não divisa-los em sua habitual “jogadadeconversafora”.

Mas naquela manhã fria de 23 de julho, a “beata da capela” não cruzou a Praça da Independencia. Os “jogadores-de-dominó” não ouviram seus passos… não observaram seu olhar perdido, não a viram surgir do nada no meio da praça nem a viram dobrar a esquina da rua 13 de junho com a Frei Mariano rápidamente.

Burburinhos surgiram.Onde estaria a beata da capela? O que teria acontecido de tão importante que não permitira que ela fosse cumprir o seu ritual de reza? Teria adoecido? Teria viajado? Teria perdido a hora?

Já aproximava-se o cair da tarde. E meia dúzia de curiosos juntaram-se aos aposentados da praça. Eram vendedores das lojas da 13de junho, eram cobradores de ônibus que circulavam pela Antonio Maria. Todos queriam saber da “beata da capela”. Ficavam um olhando para o outro sem arriscar a pergunta: ___ Alguem viu a beata hoje? ___ Mas ninguém se arriscava embora todos quisessem saber afinal o que de tão grave a impediu a sagrada visita matinal da “beata da capela” ao Jardim da Independência ?O que teria feito a “beata” nessa manhã de inverno tão rigoroso quanto o verão na região do pantanal de Mato Grosso do Sul?

De repente um dos aposentados que estava no local tomou a iniciativa:

__ Vamo dexá de lero-lero. Vamo lá a igreja falá com o padre. Ele tem que dá noticia se a beata foi hoje rezá, o se não foi. Afinar ele deve sabe max que nóx

Não foi preciso mais argumentos… Num piscar-de-olhos a procissão de curiosos deixou a praça e ganhou a rua. Carros pararam, sinaleiro deteve-se entre a ordem de seguir e de parar e a quase multidão tomou o rumo da igreja. Ao dobrarem a esquina da alameda Helo Hurt , puderam ver a multidão em frente a matriz Nossa Senhora da Candelária.

Com o terço na mão uma senhorinha balbuciava sua reza. Dedos nervosos de uma outra senhora coriam entre as contas mostrando que ela não seguia a guia das contas do rosário… O que teria acontecido afinal?

Na escadaria da igreja, vestindo um espaço vazio, estava o vestido de flores brancas em fundo preto, o véu cobria uma cabeça imaginária, o terço solto no chão.

A “beata da capela” despira-se de sua penitencia e sumira da mesma forma que aparecia no meio da praça com passos miúdos e rápidos para suas orações matinais durante anos a fio…

 

( AUTORIA DE MARLUCI BRASIL)

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Publicado por em 13 de novembro de 2014 em MEUS ESCRITOS

 

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