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Arquivo mensal: maio 2019

ATITUDES


 

lider-martelo

Quando eu tinha meus 14 anos de idade, fiz amizade com uma garota que tinha recém mudado para uma vila de casas antigas que ficava na rua América em frente ao lugar em que hoje é o Posto Paulista. O nome dela era Rosemary, mas todos a chamavam de Rose.

Rose tinha a mesma idade minha, entretanto seu aniversário era em setembro e o meu em março.

Rose era uma menina bonita e todos os meninos da vizinhança olhavam para ela com uma admiração que eu sonhava que um dia olhassem para mim.

Rose era moderninha para a época. Fumava e bebia latinha de Skol (escondido é claro _ foi com ela que experimentei pela primeira vez o cigarro e o sal e limão na borda da latinha de cerveja).

Alguns anos mais tarde fiquei sabendo que o irmãozinho de Rose não era irmãozinho dela, era seu filho. Um menino de 1 ano de idade, lindo!!!

Rose era tudo o que eu queria ser. Bonita, magra, popular e divertida.

Mamãe implicava com nossa amizade. Várias vezes me deu bronca quando chegava em casa (vindo de seu trabalho na escola como professora) e não me encontrava porque eu estava passeando com a Rose.

Muitas vezes “matei aula” para ir com minha amiga passear no porto geral. Lá, eu ficava cuidando os guardinhas enquanto ela só de calcinha tomava banho no rio… O perigo era divertido.

Um dia mamãe chegou em casa muito brava e me colocou de castigo. Eu cantava no coral do GENIC e ela não me deixou ir ao ensaio. Antes de ir para a escola, me levou para a casa de vovó Lucinda e recomendou que minha avó não me deixasse colocar “o nariz na janela”.

Fiquei chorando na sala. Vovó fechou a porta quando mamãe saiu e sentou-se em minha frente, esfregando as mãos ainda molhadas no vestido de desbotado.

_ Mamãe é preconceituosa, vó! A mãe da Rose vive falando pra ela que eu sou a amizade certa para ela, mas mamãe acha que ela não é a amizade certa para mim. Rose é legal, ela não ri de minha gordura, ela me defende quando me chamam de gorda. Por que mamãe não gosta dela?

_ Essa Rose que você fala, te defende?

_ Sim. Ela é minha amiga!!!!

_ Que bom Marluci, isso mostra que nem todo mundo tem só lado ruim. Esse é um lado bom dela e eu vou conversar com sua mãe sobre isso.

_ Mas mamãe é ruim, ela acredita no que falam da Rose.

_ É que onde tem fumaça tem fogo.

_ Mas é mentira vó. Só porque a Rose fuma?

_ Tá vendo? Fumaça e fogo!

_ Mas é de cigarro!

_ Cigarro não é do bem.

_ Mas a vovó Alvina ( mãe de meu avô Castro)  fuma, tio Carlinhos também fuma  e mamãe também.

_ É o lado ruim deles.

_ Não entendo. Se mamãe também tem esse lado ruim, por que ela implica com o lado ruim da Rose?

_ Porque atitudes são contagiosas.

Fiquei olhando nos olhos de vovó por um bom tempo e ela me olhou também, nossos olhares se misturaram e a frase dela ficou martelando em minha cabeça…

Dias depois eu disse para vovó

_ Vó, aquilo que a senhora falou pra mim não sai de minha cabeça. Sobre a atitude ser contagiosa… Eu também não posso ser contagiada pela atitude de mamãe de fumar?

Ela parou de lavar a louça veio em minha direção mancando por causa de seu problema na perna. Segurou meu queixo. Levantou meu rosto e me olhou no fundo dos olhos.

__ Se você pensar como martelo, vai tratar todo mundo como se fosse um prego!

(Desde então duas frases se repetem em meu pensamento antes das atitudes que tenho que tomar)

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Publicado por em 18 de maio de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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TARUMÃS


Taruma do cerrado vitex polygama mudas

Minha irmã Marcia me contou que mamãe estava triste. Tinha acontecido alguma coisa no serviço de nossa mãe e isso tinha provocado muita dor de cabeça nela, talvez fosse de tanto chorar. Mamãe sempre tinha fortes dores de cabeça.

Fui até o quarto e a encontrei deitada e com uma toalha de rosto dobrada cobrindo seus olhos.

Talvez ela estivesse dormindo.

Fiquei em pé ao seu lado observando a sua respiração. Percebi que ela chorava. Era um choro contido, abafado, escondido…

Arrisquei uma opinião e falei quase num fio de voz:

_ Vai na casa de vovó mãe. Conta pra ela que passa.

Mamãe tirou lentamente a toalha do rosto e ficou me olhando…  Não sei precisar quanto tempo, só me lembro que chorei ao vê-la chorando.

Sentou-se na cama.

_ Você vai comigo?

(óbvio que eu iria)

Consenti com um movimento de cabeça.

Ela levantou, pegou a chave da rural azul e branca , me tomou pela mão e fomos para a casa de vovó Lucinda,

O percurso foi feito em silencio.

Entramos na casa de vovó, e ela estava no tanque de lavar roupas colocado na direção da pequena escada que dava acesso ao quintal e ao seu quartinho de orações.

Vovó parece que sentia minha presença. Ela estava de costas para mim, mas parou o movimento de esfregar a roupa nas ondas da pia de cimento. Tudo ficou suspenso no ar.

Virou-se e me olhou…

_ Vó, vai ajudar mamãe. Deixa que eu lavo a roupa para a senhora.

Ela enxugou as mãos e passou por mim subindo os lances da pequena escada de 4 ou 5 degraus, passou a mão na minha cabeça e me disse:

_ Eu termino meu serviço quando acabar de falar com sua mãe. Vai ser uma conversa de mãe e filha. Fique aqui, o pé de tarumã está cheio, aproveita e vai chupar tarumã. Você gosta.

Sorri para ela. E ela foi pelo corredor mancando. Observei que a ferida na sua perna esquerda envolvida num pedaço de pano, sangrava. Vovó tinha uma ferida feita pelas varizes que estouraram e que não fechava, era um buraco horrível, escuro e arroxeado.

Sentei num dos degraus e fiquei chupando tarumãs…

Sempre fui uma criança curiosa. Não me aguentei e fui passo a passo, como uma felina em caça, tentando aproximar-me para ouvir o que tinha acontecido com mamãe. Ah!!!!!! Se eu descobrisse quem tinha feito mamãe chorar, haveria de conhecer a minha fúria.

Não ouvi a voz de minha mãe, só ouvi vovó dizendo:

_ Quando temos problemas é comum pedir a Deus que ele nos ajude. Mas você tem que ter cuidado com o que pede e como você pede. Se você pedir como Elias pediu, você pode não entender o que Deus vai fazer.

… (Meu santo Jesus!!!! Quem era esse tal de Elias? Será que era ele quem fez mamãe chorar?)

_ Elias tinha medo da rainha que queria mata-lo e ele clamou que Deus o ajudasse e acabasse logo com aquilo. Ele queria se ver livre.

… (Que rainha? De quem vovó estava falando?)

_ Deus mandou um anjo para adormecer Elias e ele não ver o tempo passar e nem acabar com o medo. Mas o pior aconteceu, a rainha acabou mandando cortar a cabeça dele.

… (Meu Deus!!! A tal rainha era uma assassina!!! Coitado do tal Elias)

_ Temos que pedir com paz no coração, sem raiva, sem mágoa, só assim Deus atende com calma também. O medo e a raiva sujam os pedidos da gente. Deus não atende pedidos sujos de sentimentos ruins. Seja humilde ao pedir, dobre seus joelhos, DE JOELHOS NINGUEM TROPEÇA.

Voltei aos tarumãs pensando na rainha e no tal Elias…

Devo ter chupado uma bacia-de-rosto cheia de tarumãs. Quieta… Passando a mão pelos joelhos…

 

 
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Publicado por em 10 de maio de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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Lendo o futuro


astrologia-astrocentro_878

Era uma tarde de domingo, eu e minha irmã fomos (escondidas de mamãe) com nossas primas ler a sorte numa cartomante.
Quando voltamos para casa encontramos toda fechada e com um bilhete dobradinho no batente: ESTOU NA CASA DE MAMÃE.
Mais ou menos umas 15 quadras nos separavam da casa de vovó Lucinda, mas fomos para lá encontrar com nossa mão.
Assim que entramos veio a pergunta:
__ Onde vocês estavam?
Respondemos ao mesmo tempo e com respostas diferentes:
_ Na casa de tia Rudy.
_ Na casa de tia Téia.
Mamãe olhou para nós duas… E vinha bronca:
_ É melhor falar a verdade. Diga você, Marcia, e fale olhando pra mim. (mamãe sempre acreditou mais nela do que em mim)
_ Fomos ler sorte nas cartas na cartomante da rua américa com Arany.
Mamãe demonstrou todo o seu aborrecimento com nossa mentira e com nosso feito em pelo menos uma meia hora de bronca.
E finalizou: _ Já falei: O FUTURO A DEUS PERTENCE.
Enquanto ela dava a bronca, minha irmã ouvia de cabeça baixa, mas eu olhava para vovó Lucinda, acompanhando as expressões faciais dela, só assim eu podia ter certeza se o que mamãe falava era correto ou não.
Minha irmã, como sempre chorava na hora da bronca, e foi chorar na sala, mamãe saiu em direção a ela, vovó voltou para a cozinha e eu fui sentar junto à mesa enorme, no cantinho do banco de madeira, bem à frente da porta da cozinha para observar vovó.
E ela olhou para mim enquanto assoprava o fogo do fogão de lenha e começou a minha aula de vida sem que eu pedisse…
_ Sabe de uma coisa Marluci? Se você quer ser um Noé da vida, tem que se preparar para isso.
_ Quem é Noé, vó?
_ Foi o homem que Deus escolheu para recomeçar a vida na Terra.
_ Igual Adão?
_ Não. A responsabilidade de Noé foi maior. Ele tinha que recomeçar tudo. Com animais e plantas também…
E me contou toda a história de Noé enquanto preparava o feijão, que com seu cheiro provocava um verdadeiro alagamento em minha boca.
Eu bebia cada palavra dela como se fosse a única água que me matasse a sede.
_ Deus avisou Noé, e ele acreditou. Por isso ele se salvou. Deus falou o iria acontecer e aconteceu. Hoje tem a previsão do tempo não tem? Então Noé foi a primeira pessoa que acreditou na previsão do tempo. Então se é bíblico prever o que vai acontecer, não pode ser pecado. O problema é acreditar em quem está prevendo. No caso de Noé era Deus. Entendeu?
Afirmei que sim com o movimento da cabeça.
E ela continuou:
_ Tudo o que você precisa saber sobre o futuro é que amanhã quando o sol nascer teremos o dia e quando ele se pôr, a lua e as estrelas chegam e nós teremos a noite. O que você vai fazer com essa informação depende de você e não de quem te falar isso, entendeu?
_ Entendi vó.
_ E presta atenção, quem lê esse futuro para nós é Deus. E ele lê todos os dias…
Levantei para atender mamãe que já me chamava para ir para casa, mas ainda pude ouvir ela falando
__ E não se esqueça, se você se perder um dia e precisar ser resgatada, o resgate de Deus é o único que nunca chega tarde demais.
Parei, olhei para traz e pude vê-la soprando a palma da mão para provar o sal do feijão.

 
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Publicado por em 8 de maio de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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Fuja!


Certa vez entrei esbaforida na casa de vovó Lucinda. O homem do saco ( um louco que andava pelas ruas de minha cidade carregando um saco de estopa nos ombros) vinha em minha direção m na mesma calçada que eu.

Todas as crianças da época tinham medo do “homem do saco”. Ele era louco e roubava criancinhas, colocava no saco e entrava no pantanal para alimentar os jacarés que eram seus bichos de estimação.; e tem mais, ele só gostava de pegar crianças arteiras, briguentas, desobedientes, teimosas e choronas. Eu nunca fui chorona mas… E eu tinha muito medo dele.

Vovó estava servindo o café do bule no copo de tio Carlinhos.

_ O que foi Marluci? _ perguntou meu tio

_ O homem do saco _ respondi com a respiração entrecortada_ vinha em minha direção.

Meu tio riu muito e ainda brincou comigo.

_ Ele ia te pegar, com certeza. Você é briguenta, é danada… Por que você não ficou para enfrentar ele já que você é tão briguenta, tão “maluda”.

_ Por que ele é maior que eu _ respondi prontamente.

_ Fala a verdade , você se acovardou. _ disse ele, com um sorriso provocador.

Cerrei os olhos de raiva, mordi os lábios segurando o palavrão.

Vovó aproximou-se de mim, segurou minha mão e me olhou nos olhos.

_ Fugir parece ser uma atitude de covardes, que não sabem enfrentar uma situação, mas fugir exige muito mais coragem do que ficar. Na nossa vida existem momentos em que fugir é o melhor que podemos fazer. Toda vez que você encontrar em sua vida situações que forem maiores que as suas forças, seja corajosa. Fuja!

Olhei para tio Carlinhos que mudamente, cabisbaixo tomava seu café enquanto vovó largava minhas mãos e tocava o ombro dele com dois tapinhas maternais sem dizer nem mais uma palavra.

 
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Publicado por em 3 de maio de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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