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Arquivo diário: 10 de maio de 2019

TARUMÃS


Taruma do cerrado vitex polygama mudas

Minha irmã Marcia me contou que mamãe estava triste. Tinha acontecido alguma coisa no serviço de nossa mãe e isso tinha provocado muita dor de cabeça nela, talvez fosse de tanto chorar. Mamãe sempre tinha fortes dores de cabeça.

Fui até o quarto e a encontrei deitada e com uma toalha de rosto dobrada cobrindo seus olhos.

Talvez ela estivesse dormindo.

Fiquei em pé ao seu lado observando a sua respiração. Percebi que ela chorava. Era um choro contido, abafado, escondido…

Arrisquei uma opinião e falei quase num fio de voz:

_ Vai na casa de vovó mãe. Conta pra ela que passa.

Mamãe tirou lentamente a toalha do rosto e ficou me olhando…  Não sei precisar quanto tempo, só me lembro que chorei ao vê-la chorando.

Sentou-se na cama.

_ Você vai comigo?

(óbvio que eu iria)

Consenti com um movimento de cabeça.

Ela levantou, pegou a chave da rural azul e branca , me tomou pela mão e fomos para a casa de vovó Lucinda,

O percurso foi feito em silencio.

Entramos na casa de vovó, e ela estava no tanque de lavar roupas colocado na direção da pequena escada que dava acesso ao quintal e ao seu quartinho de orações.

Vovó parece que sentia minha presença. Ela estava de costas para mim, mas parou o movimento de esfregar a roupa nas ondas da pia de cimento. Tudo ficou suspenso no ar.

Virou-se e me olhou…

_ Vó, vai ajudar mamãe. Deixa que eu lavo a roupa para a senhora.

Ela enxugou as mãos e passou por mim subindo os lances da pequena escada de 4 ou 5 degraus, passou a mão na minha cabeça e me disse:

_ Eu termino meu serviço quando acabar de falar com sua mãe. Vai ser uma conversa de mãe e filha. Fique aqui, o pé de tarumã está cheio, aproveita e vai chupar tarumã. Você gosta.

Sorri para ela. E ela foi pelo corredor mancando. Observei que a ferida na sua perna esquerda envolvida num pedaço de pano, sangrava. Vovó tinha uma ferida feita pelas varizes que estouraram e que não fechava, era um buraco horrível, escuro e arroxeado.

Sentei num dos degraus e fiquei chupando tarumãs…

Sempre fui uma criança curiosa. Não me aguentei e fui passo a passo, como uma felina em caça, tentando aproximar-me para ouvir o que tinha acontecido com mamãe. Ah!!!!!! Se eu descobrisse quem tinha feito mamãe chorar, haveria de conhecer a minha fúria.

Não ouvi a voz de minha mãe, só ouvi vovó dizendo:

_ Quando temos problemas é comum pedir a Deus que ele nos ajude. Mas você tem que ter cuidado com o que pede e como você pede. Se você pedir como Elias pediu, você pode não entender o que Deus vai fazer.

… (Meu santo Jesus!!!! Quem era esse tal de Elias? Será que era ele quem fez mamãe chorar?)

_ Elias tinha medo da rainha que queria mata-lo e ele clamou que Deus o ajudasse e acabasse logo com aquilo. Ele queria se ver livre.

… (Que rainha? De quem vovó estava falando?)

_ Deus mandou um anjo para adormecer Elias e ele não ver o tempo passar e nem acabar com o medo. Mas o pior aconteceu, a rainha acabou mandando cortar a cabeça dele.

… (Meu Deus!!! A tal rainha era uma assassina!!! Coitado do tal Elias)

_ Temos que pedir com paz no coração, sem raiva, sem mágoa, só assim Deus atende com calma também. O medo e a raiva sujam os pedidos da gente. Deus não atende pedidos sujos de sentimentos ruins. Seja humilde ao pedir, dobre seus joelhos, DE JOELHOS NINGUEM TROPEÇA.

Voltei aos tarumãs pensando na rainha e no tal Elias…

Devo ter chupado uma bacia-de-rosto cheia de tarumãs. Quieta… Passando a mão pelos joelhos…

 

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Publicado por em 10 de maio de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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