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Arquivo mensal: junho 2019

Bem-me-quer mal-me-quer


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Minha irmã estava apaixonada, o nome dele era Tadeu, não sei o que foi feito de Tadeu, nunca mais ouvi falar dele, só do irmão menor, o Edes, que acabou se casando com uma amiga de minha irmã, a Vânia.
Marcia vivia com os olhos perdidos no espaço, suspirando pelos cantos da casa e eu sabia: era por conta do Tadeu.
Comprou um caderno, vivia escrevendo escondida, as vezes chorando, as vezes com um sorriso preso nos lábios…
Eu precisava conversar com alguém sobre o que estava acontecendo com minha irmã.
Entrei na casa de vovó Lucinda com uma margarida na mão (peguei de um jardim no caminho que fiz até a casa dela).
_ Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer.
Ouvi vovó falando lá da cozinha (ela sempre estava ou no tanque de roupas para lavar, ou na cozinha) __ Vai dar mal-me-quer.
… E deu
_ Como a senhora sabia que ia dar “mal-me-quer “, vó?
_ Porque quem quer bem, não maltrata nem uma flor.
Senti um nó no peito e uma vontade incontrolável de chorar.
A culpa me prendeu ao chão. Não fui capaz de mover um passo. Ela percebeu o efeito de suas palavras em mim e veio ao meu encontro enxugando as mãos no vestido preto de bolinhas brancas…
Me pegou pelas mãos e levou-meu até o banco comprido de madeira que ficava nos dois lados da mesa da família.
_ Marluci, a flor é uma criatura de Deus. Tem vida. Deus deu a vida pra ela, não podemos tirar a vida nem de uma flor. Não podemos arrancar a florzinha do seio de família dela, que mora no jardim.
Comecei a chorar…
Limpou-me as lágrimas e continuou: __Não chore, você fez sem saber. Mas agora você já sabe. Se você quer dar uma flor para alguém, então dá uma flor brotinho e peça para a pessoa cuidar com amor, assim quem cuida vai estar cuidando da vida, vai estar lembrando do gesto de amor. Temos que ter cuidado quando queremos demonstrar amor. Quem não pensa com o coração corre o risco de demonstrar dor achando que está demonstrando amor. Entendeu?
__ Sim vó.
Ela voltou para a cozinha.
_ Você fica para o almoço? Vou fazer macarrão com molho de almondegas.
(Ah!!!! O macarrão com almondegas da vovó… Nunca mais comi igual)
_ Oba vó. Eu quero sim.
Continuei sentada no banco olhando ela fazer as bolinhas de carne moída com as mãos.
_ Vó.
_ Sim…
_Marcia, tá estranha.
Ela parou e me olhou com uma interrogação no olhar.
_ Acho que ela tá apaixonada
Ela riu e deixou cair uma bolinha de carne no chão (Mixe _ o gato _ pegou em questão de segundos)
_ Isso é bom.
_ Por que?
_ Porque ela está experimentando uma nova forma de sentir amor.
_ Mas ela não fala comigo.
Ela jogou um pano de prato em cima da vasilha com as almondegas para mosca e o Mixe não atacarem a carne e veio ela em minha direção novamente; sentou-se ao meu lado:
_ Amar é simples e é complicado ao mesmo tempo. Não são todas as pessoas que conseguem amar. Para amar é preciso entender o amor. É preciso tomar decisões, é preciso renunciar, é preciso aprender a ler o olhar, é preciso saber perdoar, é preciso recomeçar todo dia… E isso a gente aprende sozinha. A gente ensina pra gente. Dá tempo pra sua irmã. Ela está aprendendo a ser mulher de verdade e você um dia também vai aprender.
Olhei para ela. Ela olhou para mim… Segundos eternos se passaram naquela troca de olhar e ela continuou.
_ O segredo é não procurar o amor… Nunca tente encontrar o amor. Tenha paciência. Espere. Ele que tem que encontrar você. Quando saímos procurando o amor encontramos muita coisa que não é amor fingindo que é, e ai você sofre.
(Vó, não segui seu conselho… Procurei… Sofri…)
OBS: quando terminei de escrever esta lembrança veio uma frase em minha mente (com o tom da voz dela) _ Não desista! Espere!
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Publicado por em 12 de junho de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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