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Conversa com Vovó Lucinda sobre TENTAR OUTRA VEZ.

17 jul

primeiro-passo-200x177 Minha escola (GENIC) estava na final dos jogos estudantis da cidade. E o jogo de volleyboll ia ser na nossa quadra, estávamos fazendo bandeirinha, chocalhos, afinando os instrumentos da fanfarra. Todas as meninas se concentravam em Susan Meire, Biluca e Mariângela. Todas as meninas queriam ser uma delas (inclusive eu). Elas eram as melhores jogadoras de vôlei da cidade e Susan, a mais bonita e cobiçada de todas.
Su (como eu a chamava) era atenciosa com todos que chegavam perto dela, mas naquele dia estava diferente, concentrada, quieta… Eu a vi sentada no batente da gruta de Nossa Senhora, entre as folhagens e a arvore de jasmim que fazia uma sombra cheirosa. Fui lá falar com ela.
__ Você está bem? __ Perguntei.
__ Não __ ela respondeu, levantou-se e foi sentar em outro lugar me deixando sozinha sem entender o que tinha acontecido.
Perdemos a final. Susan jogou mal, cortava na rede, demorava para fazer o bloqueio, errava os saques… Teve até vaia … Ninguém entendia o que estava acontecendo com ela.
Quando o jogo terminou, fui como sempre para a casa de vovó Lucinda. E já cheguei procurando por ela:
__ Vó! Vó! Cadê você?
__ No quartinho rezando __ me respondeu Dirce que lavava as louças na cozinha.
Fui até ela. Entrei e me sentei no banquinho de madeira que tinha no seu quartinho de orações enquanto ela de joelhos recitava a novena de MENINO JESUS DE PRAGA. Como sempre ela pedia por tio Eca, para que ele parasse de beber e cuidasse da saúde.
Quando ela terminou sua novena levantou-se do chão e sentou ao meu lado.
__ O que aconteceu? __ me perguntou.
Contei para ela, com a garganta apertada, meio querendo chorar. (Eu sempre chorava perto de vovó, a presença dela me emocionava).
_ Olha _ me disse ela_ não é sempre que estamos bem, as vezes acontece coisas com a gente, que a gente não quer contar para ninguém. São problemas pessoais. Sua amiga queria resolver os problemas dela, deixa ela sozinha. Quando ficamos sozinhos a gente consegue ouvir a voz do nosso coração. Se você não fez nada para ela ficar zangada com você, então tá tudo bem.
_ Não fiz, vó! Apressei-me a dizer.
__ Então ótimo. Não sofra por isso.
__ Mas vovó ela não quer nem ficar perto de mim, será que fizeram fofoca de mim pra ela?
__ Quem faria isso?
__ As meninas que não gostam de mim.
_ Mas ela não é sua amiga?
__ É sim
__ Marluci, você, eu to vendo que é amiga dela, mas eu perguntei se ela é sua amiga. Se ela já te deu provas de amizade sincera.
_ Já vovó.
_ Então aguarde. Fica tranquila. Reza para o anjo de guarda dela e para o seu anjo de guarda, os dois anjos se entendem e aproximam vocês.
_ Mas vovó…
Ela sorriu e me deu um cascudo carinhoso.
__ Olha se isso está te deixando tão incomodada, vá falar com ela, agora que ela perdeu o jogo deve estar mais frágil ainda. Deve estar precisando de uma amiga.
_ Mas eu tentei e não adiantou nada
_ Tenta de novo.
_ Eu não!!! E se ela me tratar de novo daquele jeito?
_ Você acha que ela faria isso?
_ Não sei…
_Se você não sabe então dê o primeiro passo para saber o que está acontecendo com sua amiga.
_ Dar o primeiro passo não vai adiantar nada, ela não vai falar comigo __ respondi com pessimismo e dor adolescente.
_ Engano seu. O primeiro passo é sempre o Primeiro Passo. Ele é muito importante, Ele pode até não te levar a lugar nenhum, mas ele te tira do lugar onde você estava.
Olhei para ela… De onde ela tirava aquela sabedoria toda?
Fui para casa e no caminho passei na casa de Susan, dei o primeiro passo, o segundo, o terceiro ajudei minha amiga no que a estava atormentando e nossa amizade se firmou ainda mais.

 
1 comentário

Publicado por em 17 de julho de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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Uma resposta para “Conversa com Vovó Lucinda sobre TENTAR OUTRA VEZ.

  1. Benedito Rodrigues da Costa

    18 de julho de 2019 at 5:42

    Um lindo relato de uma época ainda romântica de nossa Corumbá, uma cidade onde a amizade, a cultura e o esporte, sempre foram marcantes, fazendo com que a alegria tinha lugar cativo em qualquer ocasião. Os estudantes sabiam distribuir simpatia e respeito. Bene.

    Curtido por 1 pessoa

     

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