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A lição do Rio

29 nov

rio

Uma semana pensando em vovó Lucinda…

Uma semana me perguntando o que ela me diria sobre o momento que estou passando…

A lembrança de menina, encolhida diante da realidade assustadora mas que “assustadoramente” não me parece fatalidade, ou decreto, ou castigo, ou algo REALMENTE GRAVE, adormece feito feto …

Forço a memória, ela está entorpecida, sonolenta…

Não consigo… Deito-me em minha cama, jogo “paciência” no celular e espero o sono chegar… Nem percebi quando fechei os olhos.

Sentada na poltrona ao lado de minha cama, observo meu corpo adormecido…

_ “Estou dormindo”_ pensei…

Senti a mão passando pelos meus cabelos, olhei para o lado e para cima. Uma especie de portal de luz se fazia junto ao bico-de-lampada no teto de meu quarto.

Vovó Lucinda estava em pé ao meu lado, acariciando meus cabelos…

_ Eles vão cair vó?

_ Se cair, outros nascerão! __ e sorriu para mim.

_ E meu peito?

_ Ele já cumpriu sua missão, te fez mulher, te fez mãe, até serviu de proteção para seu coração contra as pancadas que a vida dá na gente.

Olhei para meu corpo adormecido… Olhei para ela…

_ Vão me entubar de novo vó?

_ Você não vai nem ver, nem sentir.

E continuava me acariciando os cabelos.

_ Vou morrer vó?

Segurou meu rosto com as mãos, levantou meu queixo…  Senti o cheiro de tempero caseiro em suas mãos. Senti a pele fina dos seus dedos…

_ A vida é um rio, tem nascente e morre numa coisa maior, o mar. Lá ele se junta com outras vidas, formam a vida universal, evaporam e caem feito chuva, alimentam a cabeceira da nascente e se tornam rio novamente e tudo se repete… Sabe porque o rio nasce, nasce e nasce e nasce?

Olhei pra ela embevecida… Lá vinha um novo ensinamento.

Meu corpo se mexeu na cama ao meu lado; desviei o olhar para ele e ela me pegou pelo queixo novamente me forçando a olhar nos seus olhos miúdos com um brilho diferente do que eu me lembrava…

Continuou__ Porque ele aprende a lidar com as pedras que surgem pelo seu caminho. Ele contorna. Ele alisa as pedras ásperas a cada vida nova, ele acaba diminuindo aquilo que está lá, duro como pedra, porque É PEDRA (frisou a entonação da voz) e ele segue seu caminho.

_ As pedras são as provações né vó?

Ela assentiu com a cabeça e continuou.

_ Se tem um baque, um susto, uma dor muito forte ele salta, ele cai…. Uma coisa que joga o rio para baixo entende? Ele desce com força, ele corre, ele vira cachoeira se for preciso, mas ele continua seu caminho; depois do perigo da queda passada ele se acalma… fica lisinho… sai alimentando de vida aquilo que está nas margens… até encontrar o mar…

_ Mas Vó, tem rio que não encontra o mar.

_ Esses, vão por baixo da terra… cavam a sua cova e no fim… acabam no mar também.

Como ela podia pensar isso tudo? Como ela podia ter uma visão dessa? Com quem ela aprendeu essas comparações? Ela não tinha estudo… Lembro dela desenhando vagarosamente seu nome… Em que escola vovó Lucinda estudou?

Ela passou a mão em meus cabelos e completou.

_ Preciso voltar para minha dimensão Marluci. Volte você também. Não se afaste de seu corpo. Respeite seu tempo de vida. Não vou sair daqui enquanto você não voltar.

Olhei para meu corpo adormecido, eu estava pálida… minha respiração parecia não existir… fechei os olhos, suspirei fundo… quando abri novamente senti um torpor… o quarto estava escuro e vovó não estava mais ali… Olhei para a cadeira-poltrona vazia ao lado de minha cama… O cheiro de tempero caseiro ainda estava no ar…

_ Obrigada Senhor!!!! Gratidão eterna!!! Sua benção vovó!

Ouvi a resposta.

_ Deus te abençoe!

 
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Publicado por em 29 de novembro de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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