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CAPÍTULO 01

CAPÍTULO 1

Na realidade nunca pude definir o que sentia ao ver minha família se destruindo aos poucos… O rancor no tom de voz minha mãe, era coisa que me deixava sempre com uma pergunta intrigante e insistente: Por quê?

Era difícil entender naquela época que o pão-de-cada-dia na mesa posta, que a roupa de domingo, que a água-de-cheiro, que o presente oferecido a algum aniversariante, que o atendimento médico numa clínica particular sem demora, que uma simples visita ao cabeleireiro (ainda que uma vez por mês), que o andar de táxi, ou de ônibus, coisas assim, eram tão importantes para ela.

Lembro-me de meu irmão, tímido e seguro nas saias da mamãe, agarrado à sua cintura, sentado no seu colo, escondendo o rosto no seu abraço.

Lembro-me do olhar que ela dirigia a meu pai, um olhar úmido, porém frio que me assustava e que me fazia pensar que ele podia não ser o herói que eu cultuava em meu peito. Às vezes, acho que amei meu pai mais do que à minha mãe, porque ela não o amava como eu.

Os amores se dividiam na minha cabeça: meu irmão era o amor de minha mãe; minha mãe era o amor de meu irmão e eu, eu era o amor de meu pai e era para ele que eu devia dirigir o meu afeto.

Não me lembro com clareza de quando ocorreu a separação. Minha mãe ficou com a casa, com os móveis, com meu irmão, e eu, fiquei com meu pai. Fiz a opção, ele precisava de mim e eu precisava de que ele precisasse de mim.

Nossa casa então passou a ocupar um cenário quase em rascunho. Meu pai trabalhava numa fábrica de artefatos de cimento, passava o dia fabricando vasos, cantoneiras, postes sob encomenda, e eu ficava olhando o trabalho dele. Papai fabricava vasos e eu imaginava as plantas nos vasos.

Lembro-me de uma vez em que ele fez um vaso do tipo canoa quadrada, fininha, retangular, tão pequena, que eu não conseguia imaginar ali um planta qualquer.

_ É de brinquedo? _ eu perguntei.

Ele com o rosto sujo, com as mãos feridas pelo cimento que conseguira vazar a luva de lona velha, olhou-me e sorriu.

_ Não. Isso aqui é para plantar plantinhas pequenas, e vai ficar na janela de um apartamento.

Fiquei imaginando um apartamento com flores miúdas na janela e sonhei um dia morar num deles. Desolada corri os olhos pela nossa cãs improvisada com placas de muro, áspero e sem emoções, era na verdade dois quartos e uma cozinha com um armário velho, com apenas uma porta para iludir que se manteria a salvo da poeira as coisas que ali guardávamos, dois pratos, três ou quatro copos de massa de tomate, e outras coisas mais, um fogão “do tempo da onça” e uma mesa feita de concreto. Muitas vezes olhei sinistramente aquela mesa, ela nunca me passou a sensação de vida Mas era o que podíamos ter.  Assim, dividíamos o espaço entre sacos de cimento, formas, betoneira, areia e pedrisco.

Eu era uma criança, tinha apenas oito anos e adorava meu pai. Tive várias oportunidades de voltar a morar com minha mãe, morar numa casa confortável, levar uma vida normal. Mas teria que ser sem ele, e ele precisava de mim… e eu precisava que ele precisasse de mim. Meu pai estava ali e ali eu tinha que ficar.

Eram tempos ruins, o serviço era escasso e faltava tudo em casa.

Papai olhava-me às vezes de forma diferente. Seu olhar tinha cheio de carinho e culpa, acho que ouvia o pensamento dele: “Vá morar com sua mãe… vai ser melhor pra você…” mas eu sabia que meu lugar era ali. Ele tentava de todas as formas manter acesa a esperança de que em breve iríamos melhorar de vida, mas a vida parece que não concordava com ele, e a promessa de que logo teríamos a nossa casa era sempre adiada.

Ele sofria, eu sabia que ele sofria. Doía-me não poder fazer nada, bem que tentei… mas os anos de experiência não me ajudavam em nada.

Conversávamos muito, e ele sempre fez questão de me dizer o que era certo e o que era errado. Mas para mim, certo era o que ele fazia, e errado era o que faziam com ele.

Os anos passam rápido, e as crianças crescem também, eu cresci mais que as outras, sempre fui mais alta do que as meninas de minha idade e devo confessar que sofria com os apelidos, mas também fui muito feliz em ocasiões em que os “baixinhos” se viam em apuros e eu chegava cheia de moral para resolver a situação.

Eu levantava cedo, fazia café, chegava da escola, fazia o almoço e à tarde ia treinar basquete ( lá eu era uma estrela), quando voltava do treino fazia o jantar e exausta dormia.

O meu pai saía à noite e ia não se sabia para onde. Muitas vezes tive medo, encolhia-me em minha cama e enrolada nos lençóis surrados olhando o vazio negro da noite com os ouvidos atentos aos sons noturnos, só me sentia segura quando ele chegava… E ele chegava sempre bêbado.

Meu pai nunca foi violento, nunca me batia e no dia seguinte nós conversávamos muito, ele sentia-se envergonhado e prometia que não beberia mais… mas daí… num outro dia… lá vinha ele bêbado de novo.

Foi meu pai que me ensinou a cozinhar, lavar, passar. Foi ele que, desajeitadamente ensinou-me a colocar um “moddes”.

 

(Sabe Marluci? Acho que nunca ele conseguiu imaginar o quanto ele foi importante para mim naquele momento.)

 

Essas lembranças me fazem voltar a um tempo bom, um tempo que não volta mais.Minha família até hoje culpa meu pai pelo tipo de vida que eu levo.

 

(Engraçado esse lance de eu dizer MINHA FAMÍLIA, uma das maiores discriminações que nós sofremos é dizerem que onde estamos não é lugar para gente de família freqüentar… como se nós não tivéssemos uma família tambem. Mas como eu ia dizendo,  acham que meu pai é o culpado da vida que eu levo porque acreditam que foi ele quem me ensinou a beber e a fumar… eu não me lembro se foi ele, só sei que aprendi)

 

Eu bem que tentei estudar e continuar jogando basquete e não sei ao certo porque parei… aliás, esse é um dos problemas que trago comigo… eu não sei o porquê de muita coisa, só sei que elas acontecem.

 

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Uma resposta para “CAPÍTULO 01

  1. Elodia Cortez Nunes

    6 de novembro de 2014 at 8:51

    Muito bom!!!

    Curtir

     

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