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CAPÍTULO 02

Eu tinha 12 anos e meu pai, não lembro-me quanto. Vivíamos como uma família cheia de limitações, mas vivíamos bem.

Percebi a mudança de meu pai aos poucos, ele começou a se arrumar mais, passou a preocupar-se com a aparência. Penteava várias vezes o cabelo meio em pé, meio agachado para se ver no espelho quebrado que tínhamos que disputar pregado na parede do quarto.Percebi o cheiro de perfume nas roupas que eu lavava, eram perfumes diferentes dos outros, mais permanentes, menos baratos.

Foi assim que “ela” chegou. Toda carinhosa, toda certinha, toda boazinha…

Eu não gostei dela desde o princípio. Nós duas desejávamos a mesma coisa: o amor e a atenção de meu pai.

Ela não podia entender que aquele era o meu pai. Que fora “por ele” que eu renunciei o conforto de uma casa, os cuidados de uma mãe, a companhia de um irmão…Ela não podia entender que fora “por ele” que perdi minha infância lavando, passando, cozinhando.Ela não podia entender que fora “por ele” que eu passara noites em claro cheia de medo, que era eu quem tirava-lhe os sapatos quando ele chegava bêbado e se atirava na cama quase desfalecido. Ela não podia entender que fora “por ele” que eu dormi respirando cimento, me alimentei, respirando cimento, me banhei com água suja de cimento e ela foi chegando assim como se pudesse tomar conta do que era meu sem me perguntar se eu queria ou não me desfazer daquele dever: o de cuidar de meu pai.

Chegou, tomou conta de tudo e me ditou a regra: AGORA É COMIGO, e eu e meu pai tivemos que obedece-la.

Às vezes penso que meu pai cometeu esse tremendo erro, pensando dar-me uma casa decente e uma mãe para cuidar de mim, só que ele não me perguntou se eu queria isso e nem me disse se o faria porque eu não podia fazer tudo para ele. Não fui capaz de entender a atitude de meu pai e isso doeu muito, na verdade dói até hoje.

E fomos morar os três juntos numa casa onde ela era o chefe. Aquela não era a minha casa.

__ Vera, limpe seu quarto! Lave suas calcinhas na hora do banho! Lave o seu prato! Arrume a sua cama! Faça os deveres da escola! Não fique até tarde na TV! (eu sei… eu sei… eu sei… eu sei… Porra!).

Bolei um plano para fugir de casa. Meu pai não precisava mais de mim, e eu não precisava dela!

O mundo seria meu, eu iria fugir para um lugar bem distante, onde ninguém me encontrasse.  Com treze anos eu tinha 1,75 de altura, poderia ir embora, arranjar emprego numa lanchonete, numa casa de família, afinal eu sabia fazer de tudo e ninguém ia duvidar se eu falasse que tinha dezessete, quase dezoito.

Ela descobriu.

_ Quem você pensa que é, sua ingrata! Eu te recolhi na minha casa, te dei de comer, te dei uma família respeitável. O que você quer? Matar o seu pai de desgosto? Chamar a atenção? Vai, se pinta toda de vermelho e sai na rua, sua vadia.

Ela gritava à minha frente e eu quase não a ouvia, só podia perceber os seus lábios se mexendo com firmeza e rigidez, seus olhos dirigindo-me raios de fúria e senti o choque de sua mão em meu rosto. Posso afirmar que minha alma queimou com aquela bofetada. Olhei para os lados, procurei meu pai para me socorrer, me proteger. Ele não estava… Mas a porta da casa aberta mostrava-me a rua, e a rua me levava ao horizonte.

Só vi meu pai dois anos depois, quando fui para casa a passeio.

Em 1.990 eu comecei realmente a gostar de ser mulher, foi quando descobri que só assim podia me sustentar.

E posso afirmar que ser mulher é gostoso. Eu adoro se mulher. Tantas vezes eu nascer, quantas eu quero ser mulher.

Não culpo meu pai, nem minha mãe, nem minha madrasta por nada. Afinal as duas (mãe e madrasta) deram-me dois irmãozinhos lindos, que para infelicidade deles… nasceram homens.

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