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CAPÍTULO 04

Era um dia fim de tarde, quente… Daqueles que parece uma estufa ao meio-dia e meia quando Joana me procurou:

_ Vera, a D.Dora vai abrir a casa domingo. Vamos ter que encarar a cozinha.

_ Nós vamos? Mas é minha folga.

_ Larga de ser besta garota, empregado pobre, lá tem folga? A D. Dora vai dar uma festa e eu vou precisar de ajuda na cozinha. Ou você vem me ajudar ou eu procuro outra pra por no seu lugar.

Tia Nair saiu no portão:

_ Ela vai, Joana!

_ Mas Tia…

_ Não tem mas nem meio mas. Você vai. Eu não vou procurar outro emprego pra você. Sabe quanto custa um prato de comida? Sabe? Então… Vai cumprir a sua obrigação e pronto!

Joana saiu lá de casa com um sorriso nos lábios. Às vezes eu me via em confusão em relação aos meus sentimentos por Joana, eu gostava dela, mas naqueles momentos eu sentia uma raiva enorme, tinha vontade de avançar nela.

Calça curta… Desengonçada, e no meio de muitos homens, finos, gentis, tratando as meninas tão bem, aos empregados e a D.Dora que como uma estrela brilhava e todos a adoravam.

Nesse dia, eu estava lá na cozinha, lavando os pratos e uma das meninas mal-educadas apareceu na janela:

_ Vareta lava bem esse prato, falou? _

Pela porta estava entrando a D. Dora

_ Não vou admitir que você a maltrate. Respeita a garota, se não for assim, procure outro lugar para fazer freguesia.

A garota saiu resmungando enquanto D.Dora aproximou-se de mim:

_ Ouça bem meu anjo, jamais permita que alguém a humilhe. Reaja sempre, lute com as armas que você tem e se você não tiver armas, invente uma, mas lute. Lembre-se de que você é mulher tão mulher como qualquer outra, recebeu de Deus o mesmo dom sagrado: o de gerar uma vida e o de alimentar essa vida. Nós mulheres somos desejadas, muitos homens de bem morreram e morrem por nós. Quando crianças eles precisam de mãe e depois de grandes, precisam de nós. Nós mulheres, entendeu? _ levantou-me o rosto pelo queixo forçando-me a olhar em seus olhos _ Entendeu?

_ Sim _ foi tudo o que consegui responder com o coração batendo forte no peito.

_ A Jurema está errada. O respeito cabe em qualquer lugar. Exatamente por ela ser o que é, deveria dar mais valor às pessoas. Dentro da minha casa eu não aceito maus tratos, nem com empregados, nem com animais nem à grama do jardim. Ela vai ter que se retratar.

Foi quando Jurema voltou.

_ Retratar, eu? Só se for pra ser capa da Playboy! _ respondeu debochada.

Dora foi decisiva:

_ Peça desculpas ou se retire para o seu quarto, hoje você não trabalha, não tem ganho, mas não está dispensada da diária para a casa.

_ Não é justo _ respondeu Jurema _ não foi tão grave assim.

_ Se não está satisfeita procure outra casa pra trabalhar, ou então volte para Minas.

Fiquei olhando a discussão das duas, ainda me emociono quando me lembro da fúria e empenho com que fui defendida.

_ Eu só chamei a garota de vareta porque ela parece uma vareta mesmo, e isso não é xingamento.

_ Falta de respeito é xingamento.

O olhar de Jurema foi mais violento do que a provocação. Senti em minha carne o peso de seu pensamento e de seu orgulho dilacerado.

_ Volto pra Minas, mas não vou me rebaixar. Eu sou mulher lembra? Não posso deixar que ninguém me humilhe. Sou mulher lembra? _ falava pra D. Dora com uma mágoa dorida na voz, e dirigindo-se a mim _ Prepare-se, você é exótica, vareta, mas bonita… Prepare-se…

_ Jurema _ esbravejou a D. Dora.

A moça saiu de perto de nós com os olhos cheios de lágrimas. Eu só consegui sentir gratidão por D. Dora por ter me defendido com tanto ardor, não entendi o que Jurema sugeriu. Só consegui chorar. Chorei muito. Ela ficou sabendo que já tinha algum tempo eu vinha suportando aquele tipo de coisa, ficou sabendo de toda a minha vida desde quando eu era pequena, de quando minha mãe nos deixou…

Desfilei o meu rosário de queixumes e ela me ouvi atentamente, passando a mão nos meus cabelos, me acariciando, sendo companheira e amiga… coisa que eu não tinha há muito tempo.

_ Tudo o que eu queria era ser feliz. Queria uma casa de verdade, que os outros me dessem valor, queria comprar um monte de coisa, mas acho que sou sozinha, vou ter que me virar sozinha…

_ Você sabe que pode contar comigo garota. Você pode ter tudo o que você quiser. É só se valorizar entende. Tudo nessa vida tem um preço. Nós temos um preço, a felicidade tem um preço, a vida tem um preço.

_ A senhora vai me ajudar?

Ela ficou quieta me olhando…

_ Quer ser como as meninas que moram comigo, que trabalham aqui?

Começou a me falar dos pontos positivos e dos negativos, alertou-me contra o preconceito, as doenças, o perigo, as agressões, as taras…

_ Se você quiser tem que saber que vai enfrentar tudo isso…

Falou-me da vergonha, dos momentos de solidão, da repulsa, da sensação de vazio depois do dever cumprido, do atrativo do fundo do copo, da fuga das drogas.

Falou… falou… falou… falou muito e hoje eu não consigo lembrar de tudo o que foi dito…

Meus olhos marejados só conseguiam captar a mulher bonita e bem arrumada em minha frente, meus ouvidos só conseguiam ouvir o som da música e da felicidade dos risos que vinham da sala, minha mente só conseguia lembrar as ameaças de ter que voltar a conviver com minha madrasta e ter que dividir meu pai com a nova família, ou então minha mãe com meu irmão… Sentia-me sozinha… Mas amparada por D. Dora. Ela gostava de mim e me entendia.

_ Quantos anos você tem? _ perguntou-me.

_ Completo catorze anos no mês que vem. _ respondi.

_ Não parece _ disse ela. _ nem precisa parecer _ completou em voz baixa.

Ela demorou um tempo na cozinha falando comigo e isso chamou a atenção de um dos convidados que sentindo a sua falta, veio à sua procura…

 

 

 

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Uma resposta para “CAPÍTULO 04

  1. Valdeniza Abreu

    9 de novembro de 2014 at 10:40

    Li todos os capítulos uma historia muito boa para refletirmos os preconceitos sociais e entender o que esta por trás de cada um. Gostaria muito de ter esse livro .quando estiver disponível é só avisar.

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