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CAPÍTULO 05

Eu acredito e sempre vou acreditar: as coisas são marcadas, e o destino se cumpre, quer queiramos, quer não.Tudo aconteceu tão rápido, tão esquisito que eu não posso deixar de acreditar num Deus, numa Força Maior controlando as pessoas para se encontrarem com outras pessoas.Eu continuei a lavar a louça e ela foi com ele (o freguês que veio atrás dela) para o reservado, o que eu soube depois.E se colocou a reclamar das dificuldades, tantas pessoas de formação diferentes, de caráter confuso, que a noite aparentemente é só aquilo que se vê quando abre a casa e fecha o caderno, mas por trás há coisas complicadas.É preciso ter pulso, coração, fígado, paciência… Muita paciência.

(Veja como o meu destino estava traçado… Agora eu vou falar da cafetina. A primeira cafetina.) 

O destino das mulheres da noite ou é conhecer alguém, se apaixonar e casar ou ser amante de um homem casado, ser só dele, satisfazer os desejos dele e dividi-lo com a matriz e os filhos, desde que ele pague muito bem por isso, ou passar a vida toda se prostituindo, ganhando muito mais dinheiro do que juízo, gastando tudo e terminando velha… (ninguém quer uma prostituta velha) sendo cozinheira num cabaré ou perceber enquanto é tempo que a noite é apenas uma ilusão e que existem outras opções.

Finalmente o destino da prostituta pode ser a cafetina.

A cafetina fazia sala como qualquer outra prostituta. Viveu, amou, sofreu, montou uma casa, uma das melhores casas que o Estado já teve. O coração do tamanho do mundo e a conta bancária também.Nos tempos de prostituta teve várias amigas. Uma delas por nome Nair. Quando a cafetina ainda em situação financeira muito boa, Nair estava pobre. Coitada, apaixonou-se, casou, viveu sua vida de provação. Ficou viúva e pobre.A cafetina a ajudava “a amiga da noite e do tempo em que trabalhavam detaxi-girl”, picavam cartão para dançar.

(olha, ta difícil escrever… é tanta coisa que puxa outra, eu tenho certeza que você vai entender!)

Daí, um dos muitos favores que a cafetina fez à Nair foi arrumar emprego à sobrinha, filha da sobrinha, sendo que ela era tia de minha mãe.

(Você entende Marluci, que aquele emprego não era um emprego? Que ela não precisava de mim ali? Que foi tudo um favor a uma velha amiga?)

Aquele homem que sentiu falta da cafetina e veio à sua procura na cozinha, ficou sabendo de tudo isso e se interessou por mim e por minha tia. Ele tinha muito mais dinheiro que podia gastar. Ele era o que se pode chamar de um homem bonito, casado, com mulher e filhos, um deles com idade para ser meu namorado. Mas tão atencioso, tão doce, tão generoso. Mandava-me flores com um envelope que abrigava uma folha de cheque em branco.

(Você pode imaginar o que isso significava para mim?).

Ao contrário de muitas outras prostitutas, a minha primeira vez foi romântica, foi apaixonante, teve namoro, conquista, sedução.

Hoje eu acho que ele revivia em mim o seu tempo de adolescente. E eu de repente me vi apaixonada.

(Você me disse que queria detalhes, mas acho que não preciso detalhar esse momento tão lindo de minha vida, se você se entregou apaixonada… deve ter sido semelhante à minha primeira vez. Foi tão lindo que eu me reservo ao direito de não relatar, você entende, não ?)

Como eu estava dizendo, tudo aconteceu tão rápido e tão simples que quando eu vi, estava apaixonada, desvirginada…Minha tia não passava necessidade de nada, eu não trabalhava mais. Ganhei dele todo o dinheiro que pude gastar.

(Eu tinha catorze anos. O que uma garota de catorze anos faz com uma folha de cheque em branco? Responda-me se puder, eu tenho vergonha de dizer…).

Para a minha família uma vez ou outra eu mandava uma carta dizendo que estava bem. A revolta não havia passado. Eu não tinha mais família.

Um dia chegou a notícia, eu já tinha quinze anos. ELE FALECEU (17/05/1992). Eu sequer pude ir vê-lo pela última vez, pois a cidade toda comentava o nosso caso. Ele era de família conhecida e esse momento não podia ser meu. Era da família. Amarguei a perda, não da vida sem problemas financeiros, mas do primeiro homem e do primeiro amor da minha vida aos quinze anos de idade.

Foi assim que tudo começou. Da minha primeira vez, uma lembrança que carrego para o resto de minha vida. Do meu primeiro serviço: um favor prestado a uma amiga. Da minha primeira cafetina a saudade e a lembrança de uma pessoa de um valor moral superior a qualquer pessoa que tenha conhecido neste mundo.

A minha primeira viagem, carona num caminhão de boiadeiro, da minha família, a certeza de que eu tinha que sair de algum lugar, de um plano com uma promessa de evolução, desse plano para o ventre de minha mãe, da sala de um hospital para o mundo, um mundo que me acolheu de braços abertos e me fez crer que sou capaz de cumprir a minha promessa: EVOLUIR.

Depois que ele morreu, deu-se início a tudo o que você deseja escrever, das bolsinhas à esquina aos bares da vida…

 

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