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CAPÍTULO 06

O caminhoneiro era um sujeito falante, eu quase não entendia como ele conseguia dirigir e tomar o chimarrão ao mesmo tempo.

O meu papel era ficar segurando a térmica de cinco litros com água quente e ir enchendo a cuia cheia de erva-mate.

Por causa de sua insistência tive que provar e dizer que gostei mesmo sentindo a língua queimada e o amargor na boca.

O tempo todo ele falava de suas outras viagens, contou-me a respeito de quantas vezes atropelara animais silvestres na estrada, dos acidentes com pneus, da esposa doente, da viuvez, dos filhos que não lhe tinham carinho, da solidão, tornei-me um verdadeiro muro de lamentações e saco de risadas.

Não me lembro de seu nome, só sei que ele vinha falando de si o tempo todo, mas não perguntara nada de mim.

Quando chegávamos a Campo Grande, veio à pergunta:

_ Você tem certeza de que quer ir até Corumbá?

_ Tenho sim.

_ Tem parentes lá?

_ Não.

_ Conhece alguém?

_ Não.

Ele ficou quieto. Olhava-me pelo canto dos olhos e eu podia ouvir seus pensamentos.

_ Ouvi dizer que em Corumbá tem muitos turistas, muito gringo, e gringo gasta em dólar.

Ele ficou sério. Parecia saber o que eu queria fazer de minha vida.

_ Eu tenho uma neta de sua idade. Quantos anos você tem?

_ Dezoito _ menti sem pestanejar.

_ Minha neta tem dezesseis. Você acha certo o que você está para fazer?

_ Eu já faço! _ Respondi olhando a cidade que surgia à minha frente.

Ele ficou quieto. Quieto demais para o meu gosto. Acho que não gostou de minha resposta.

_ Vamos parar num posto pra abastecer e tomar um lanche.

Ele encostou o caminhão. Abriu a porta para mim.

_ Vamos?

_ Não tenho dinheiro.

_ Eu pago para você.

“Ele está tentando me proteger” _ pensei e a última coisa que eu queria naquele momento era quem me protegesse, eu precisava provar que podia sobreviver contando só comigo.

Esperei ele entrar e depois entrei na lanchonete do posto. Busquei outro lugar, longe de onde ele estava. A minha estatura chamava atenção dos demais caminhoneiros e eu gostava de perceber isso.

Sentei no banco junto ao balcão da forma mais sexy que pude. E ele me observava de longe com o senho franzido, me recriminando.

_ Posso sentar ao seu lado, lindeza?

Era um homem forte, loiro de cavanhaque e bigode.

_ Dá-lhe gaúcho!!! _ gritaram os outros que estavam numa mesa próxima ao bar.

“É a minha chance de provar se estou ou não preparada” _ pensei.

_ O banco não é meu _ respondi com o mais belo sorriso que pude estampar em meu rosto.

Sentou-se ao meu lado.

_Toma um refrigerante?

_ Só se for com uma boa dose de rum _ respondi.

Ele sorriu, demonstrando entender a minha mensagem.

_ Ô Negão vê uma loira e uma cuba pra nós._ e pegando-me pelas mãos levou-me até a sua mesa. _ vem cá boneca, aqui a gente fica mais à vontade.

Levantei e o segui.

Foi a última vez que vi o caminhoneiro que me deu a primeira carona.

Sentamo-nos à mesa engordurada e grudenta do restaurante de beira de estrada.

_ Qual o seu nome minha prenda?

_ Pra que você quer saber?

_ Pra falar contigo, tchê!

_Você já está falando.

_ O meu é gaúcho _ disse ele rindo, parecendo entender a brincadeira _ Vou te chamar de Índia. É de seu agrado minha prenda?

_ Nada contra _ respondi.

Sentia-me forte, dona de meus atos e ao mesmo tempo amedrontada, era de uma certa forma um mundo novo que se me apresentava, ali eu não contava com a proteção de D. Dora, de tia Nair e até mesmo de Joana. Agora era o mundo e eu.

“Não posso estar fazendo nada de errado, cada um trabalha naquilo que é bom e que gosta de fazer. Eu sou boa em realizar o sonho das pessoas e gosto de fazer isso, por que não faze-lo? Não estou ofendendo ninguém.” _  pensei.

Tomei bem umas duas ou três doses de cuba-libre e o meu primeiro cliente umas cinco cervejas.

Era tudo igual ao que acontecia na casa noturna de D. Dora, só o ambiente era diferente. Eu só não imaginava que seria tão diferente. Embora eu tivesse conhecido o meu primeiro homem na casa de D. Dora, ele não tinha sido o meu primeiro cliente. Nós não fazíamos sexo, nem chegava a ser amor, mas era uma doce ilusão. Uma linda e doce ilusão.

_ Você veio com quem pra cá, minha Índia?

_ De carona, com um outro caminhoneiro.

_ Como é o nome dele? Eu conheço todos.

_ Não me lembro? _ sorri _ Acho que nem perguntei.

_ Você é fogo hen?! _ disse ele pensando naturalmente que eu tinha estado sexualmente com o homem que me dera carona.

_ Eu não _ disse sorrindo, deixando que ele pensasse o que quisesse.

Naquele momento para mim era imperioso que ele tivesse a impressão de que eu era uma mulher experiente e que ele não poderia me fazer de besta. Procurei direcionar a conversa.

_ Você também tem um caminhão…

_ E dos bons, minha prenda. Um mercedão que dá gosto de ver.

_ Cabine dupla? Perguntei com cinismo.

_ Do jeito que deve ser. _ respondeu ele com a mesma dose de cinismo.

Estava se formando o clima entre nós.

_ Você cobra pra mostrar a cabine do seu caminhão? _ perguntei.

_ Cobro carinho, minha prenda. Você tem carinho pra pagar a visita.

_ Tenho de monte _ respondi com um sorriso no rosto.

_ E quanto custa o seu carinho?

_ Uma nota de cem e mais um pouco do seu carinho.

_ Está caro, minha prenda !!!

_ O que? A nota de cem, ou o seu carinho?

Pude sentir a perna dele roçando a minha por debaixo da mesa.

_ Acho que vale a pena, você é material de primeira.

Pegou-me pela mão e levou-me até a cabine de seu caminhão sob o assobio e gritinhos debochados dos amigos que ficaram na mesa do bar-restaurante.

O caminhão dele era branco e muito alto para subir, mas a dificuldade foi superada quando ele segurou-me pelas nádegas e empurrou-me escada acima. Senti meu coração acelerado, eu estava excitada mas também com medo. Afinal era o meu primeiro cliente.

Ele entrou e fomos para a parte dos cômodos do caminhoneiro. Puxou a cortina e me puxou para cima dele. Enfiou a sua língua quente e úmida em minha boca e as mãos pela minha blusa buscando os meus seios. Tocou-me os mamilos, soltou, e enfiou as mãos pelos meus cabelos, soltou-me a presilha.

_ Que crina linda, potranca! _ me disse com a voz embargada.

Beijava-me o pescoço, a orelha, a boca, os olhos, tirou-me a roupa e sugou meus seios, passeou com a língua pelo colo, meu umbigo, minhas pernas.

Eu estava excitada. Ele parecia ser um bom amante. Conhecia os segredos do corpo feminino. Ele parecia ter muito mais que duas mãos, elas estavam em todas as partes do meu corpo. Tirei-lhe a camisa e comecei a lhe retribuir os carinhos, beijei-lhe o peito largo os ombros, e quando o virei para assumir o comando da relação por alguns instantes, ele levantou a mão com fúria e atingiu-me o rosto. Fui jogada de encontro ao teto da cabine.

Assustada, encolhida no canto eu o vi tirar a roupa e avançar sobre mim como uma fera enlouquecida, puxou-me pelos cabelos e rasgou-me as partes de forma animal. Foi o meu primeiro estupro.

Aquele homem penetrava-me freneticamente, com os olhos esbugalhados, com uma das mãos tapava-me a boca e com a outra levantava minha perna esquerda, como que querendo abrir mais espaço para a invasão animal. Foi tudo muito rápido, mas pareceu durar anos.

No começo tentei reagir, mas logo percebi o que estava acontecendo e me aquietei. Deixei as coisas acontecerem, só não conseguia controlar os gemidos de dor e medo misturados com as lágrimas que desciam quentes pelo meu rosto.

_ Reage sua vaca, tenta escapar vadia, pistoleira safada _ urrava o homem junto ao meu ouvido enquanto me mordia a orelha e os ombros, babando em mim.

Quando percebeu que eu não ia reagir, porque tinha medo do que poderia acontecer, ele foi mais cruel. Com as mãos enormes tapou-me a boca e as narinas impedindo-me de respirar.

A falta do oxigênio provocou-me uma espécie de convulsão, fiquei tonta, e travei uma das maiores lutas: a luta pela vida.

Já não sentia mais dor, nem humilhação, eu só sentia medo, medo de morrer. E eu só precisava de ar…

Ele então emitiu uma espécie de urro macabro e aplicou-me um soco no rosto que me tirou os sentidos, mas ainda senti um liquido quente sendo atirado em meu rosto.

Acordei deitada na beira da estrada entre Terenos e Campo Grande com a roupa rasgada com as partes doloridas, o ombro mordido, hematomas pelo corpo e com a pele de meu rosto, ressecada pelo esperma já grudento que me foi jorrado no rosto após o soco que me desacordou…

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