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CAPITULO 03

CAPÍTULO 3

 Eu tinha então treze anos, altura de uma pessoa adulta e totalmente inexperiente em se tratando de sexo. Tudo o que eu sabia era o que as meninas de minha idade sabiam: a diferença entre homem e mulher, menstruação, e o volume do ventre feminino que significava gravidez. Eu era inocente e VIRGEM… VIRGEM MESMO!

Hoje, não me lembro se tive alguma vez um namorado para pegar na mão… ir ao cinema…comer pipoca na praça…Tudo o que me vem à lembrança dessa fase de minha vida, é que coloquei em prática o meu plano. Fui viver no mundo.

O que eu tinha nas mãos era o endereço de uma velha tia de minha mãe, e na mente a ilusão de pegar uma carona em algum lugar e ir para a casa dessa tia. Ser bem recebida, ficar morando com ela, arrumar um emprego e SER FELIZ PARA SEMPRE.

Parecia que Deus ouviu as minhas preces e que tudo estava dando certo. A tia recebeu-me como eu esperava, gostou de mim, ouviu a minha história, tratou de avisar a família de que eu estava bem e deram-me novamente o poder da escolha: voltar para casa ou ficar ali, trabalhando e ajudando nas despesas.

Eu me neguei a ver meu pai ( a madrasta) também a minha mãe. Tudo foi tratado entre eles e minha tia Nair.

Não arrumei emprego de imediato, fiquei boa parte de meu tempo ajudando minha tia, suavizando o serviço dela, cuidando da casa, até o dia em que ela me acenou com a possibilidade de um emprego.Era uma casa enorme e a patroa, uma dona amável, elegante, com roupas bonitas e um perfume forte, toda cheia de jóias.Eu adorava ficar olhando a figura dela. Enchia-me os olhos, achava tudo lindo: o olhar, o andar, o jeito de falar…Uma coisa me deixava curiosa: sempre estranhei o fato de só vê-la durante a noite.Eu era ajudante da empregada que era bem mais velha do que a dona da casa e o meu salário era uma miséria; tudo porque eu era menos importante do que a outra empregada.

Fazia o meu serviço, mas os meus olhos curiosos corriam cada canto da casa, cada detalhe, cada espelho, cada quadro na parede, cada móvel. Ajudava no almoço e ficava intrigada:

__ ”Como uma mulher tão nova pode ter tantas filhas, e todas tão diferentes uma das outras?… Umas tão educadas outras tão grosseiras e mal humoradas. Coitada, nem um filho homem!…”.

Depois de alguns dias trabalhando naquela casa, descobri que a dona não era mãe das moças, era uma cafetina. Para mim era difícil saber o verdadeiro significado da palavra, mas acabei entendendo: minha patroa era uma cafetina e as moças eram prostitutas.

Não recordo do nome delas, eu as via muito pouco, mas lembro-me perfeitamente da empregada Joana.

_ Sabe não o que é, Vera? Cafetina é quem aluga os quartos pra putaria correr solta, e ela que arruma as mulher pros homem.

_ Como assim? O que elas fazem, nos quartos com eles?

_ Elas trepam _ e olhando-me viu que eu estava chocada com a forma grosseira que ela me contava, e tentou aliviar um pouco _ elas vendem o corpo… entendeu?

_ Vendem como? …

Sei que pode parecer infantilidade eu estar contando que uma menina de treze anos não saiba o que é isso, mas eu não sabia…

 

(Verdade Marluci, não sabia mesmo. Fui criada sem mãe para me orientar, com um pai que eu adorava, mas que quando não estava bêbado, estava trabalhando e nunca havia conversado comigo esses assuntos, e eu queria saber)

 

_ Elas vão pros quarto com esses sem-vergonha, se deitam na cama com eles, fazem besteira, depois eles dão dinheiro pra elas… Entendeu?

_ Dá dinheiro pra elas fazerem besteira com eles?

_ É e não só pra elas, pra patroa também, e é isso que me deixa revoltada… Nós aqui fazemos o serviço limpo, ralamos e ganhamos num mês o que elas ganham em duas horas de putaria.

E eu fiquei pensando se era justo eu trabalhar tanto para ganhar tão pouco, limpar o chão que elas pisavam e os pratos que elas sujavam… Meu pai não tinha me falado que isso existia e eu fiquei assustada e revoltada ao mesmo tempo.

Joana riu da minha cara naquele dia e quando fui para casa com um nó no peito e conversei com tia Nair.

_ Não se meta com esses assuntos _ ela me disse _ você não está lá para julgar ninguém, faça o seu serviço e não me crie problemas, senão eu te mando de volta pra seus pais, ponho você num ônibus e você só desce quando chegar em Araçatuba. Fica quieta!

Não mais investiguei nem toquei no assunto com minha tia.

Eu via a patroa, D. Dora, só de vez em quando, porque ela tinha outra casa onde morava; mas não posso negar que a vida daquelas moças me encantava.

 

(Pelo menos a vida que elas levavam fora do horário de serviço, quando elas estavam trabalhando com os homens… Ah!… aquela vida era tudo o que eu queria pra mim. Você acha que alguém pode me criticar por ter pensado assim?

 

Eu queria uma vida sem privações, sem humilhações, queria as minhas coisas e principalmente, não queria mais as ameaças de me mandarem de volta pra casa.

  1. Dora era uma pessoa especial, passei a admirar aquela mulher, ela era doce, e quando se dirigia a mim (mesmo que raramente) me chamava de filha, querida, meu anjo, meu amorzinho…

Eu amava quando ela falava assim para mim… “Querida, por favor, traga-me um copo de água” ou “Meu anjo, me ajude a retirar as compras do carro.” Que fineza! Que educação! Eu me deliciava e ficava sentindo aquele cheiro gostoso de flores que exalava dela.

Eu já disse que a minha altura muitas vezes ainda hoje é um empecilho pra mim. Mesmo no tempo da escola eu já era motivo de chacotas. Não sou complexada, mas algumas vezes sentia-me constrangida.

As putas riam de mim quando eu ia trabalhar com uma calça curta e diziam que eu era esquisita, desengonçada, comprida, girafa, vara de cutucar mamão, de cutucar estrela etc.

Muitas vezes tive vontade de responder:

_ Posso ser tudo isso, mas não sou puta! _ mas calava-me, não poderia perder o meu emprego nem prever o meu futuro…

 

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