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NOTA DA AUTORA

Quantos livros, meu Deus, eu tenho escritos em minha mente, quantos poemas, quantas histórias… Mas o livro da minha vida? Ainda não escrevi.

Gostaria de revelar o lado obscuro da lua, o fundo do Rio Negro, as profundezas dos oceanos, as faces da alma humana.

Não quero um quadro de paisagens, que limitem a arte da fotografia. Quero um quadro de pintura abstrata vista e analisada, não sob a interpretação de quem o vê pendurado numa parede, a análise deste quadro tem que ser sob o ponto de vista de quem o pintou.

Quero falar sobre as dores, as decepções, as alegrias, as aspirações; não de quem ouve ou vê, mas de quem as vivencia.

Foi isso que eu comentei com uma moça alta, morena, meio Iracema meio Senhora, uma figura que oscila na visão Alencariana da mulher brasileira.

Ela ouviu-me, quieta, quase soberba em sua dignidade, sorriu-me e perguntou se isso implicaria em uma obra biográfica. Afirmei que sim, que queria contar histórias que a sociedade vê como proibidas, que queria ver o mundo com os olhos de quem vive o mesmo mundo que eu, mas de forma diferente.

A moça sorriu, senti-me quase uma adolescente e afirmou em sua experiência de vinte e poucos anos para a ingenuidade dos meus “enta” e tantos anos, que o livro dos meus sonhos implicaria em confiança, em esperança, em desespero, em vivências, em envolvimentos emocionais com problemas que não eram meus. E eu afirmei estar preparada para isso.

E ela quis saber sobre o quê eu queria escrever, e eu expliquei que seria sobre problemas que eu não tinha vivenciado, como drogas, homossexualidade, prostituição… Ela perdeu o olhar no vazio e reafirmou que seria muito difícil…

Quase um mês depois eu a encontrei novamente, e ela sempre bonita e com uma distinção digna das damas da corte britânica entregou-me uma tímida folha de caderno com escritos que passo a reproduzi-los na íntegra.

“Eu pensei muito no que você me pediu naquele sábado. Muitas vezes eu tentei escrever alguma coisa que pudesse dar início a um relato. Confesso que foram muitas as tentativas, todas inúteis.

Eu começo a pensar no que dizer, e de repente, fatos tão distantes reaparecem na minha cabeça, como se eu os tivesse vivendo novamente… daí, eu desisto.

Essa semana, uma decepção muito grande me fez pensar em mim mesma. Não como um ser humano, uma pessoa de carne, osso e sentimento, mas sim como prostituta, garota de programa que sou e do pouco valor que eu posso ter na vida de outra pessoa.

Eu senti vontade de chutar o mundo, de falar que eu sou gente, que nós somos pessoas normais, que pensamos, sofremos e vivemos também, apesar de ser uma maneira diferente de viver…vivemos e sentimos.

Então eu me lembrei de você, e acho que estou pronta para falar. Falar da gente mesmo é difícil, sempre é mais fácil falar dos outros.

Não sei se você ainda está interessada, Mas se estiver me procure. Eu vou preferir escrever a gravar, daí você faz o que quiser com o que chegar às suas mãos. Espero que você ainda queira.

Rua Dom Aquino ____

 

                        INAI  (15/04/02)

 

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