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A música te escolheu!


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A primeira vez que ele chamou a atenção de toda a família para o seu dom foi aos 2 anos de idade. Podia estar brincando onde fosse, bastava que minha mãe se sentasse ao piano, bastava uma única nota e ele largava o que estava fazendo e corria para a sala.

Ficava sentadinho, olhando mamãe ou tia Maria tocar. Fechava os olhinhos e reclinava a cabeça… Era encantador de se ver.

No início achávamos “bonitinho” e quase não demos valor ao que tio Costinha dizia:”Maria sempre fala que Felipinho vai ser pianista.”

Para toda minha família a futura pianista seria minha filha Leatrice, para quem minha mãe já tinha deixado o piano dela como herança caso viesse a falecer.

Quando ele tinha 5 anos enquanto todos almoçavam à mesa, a mesa dele era o piano.

Quando ele ficava triste, sentava-se ao banco do piano, deitava a cabecinha na madeira que protegia as teclas e ali chorava, com os ouvidos colados à madeira muda até adormecer…

Quando ele estava muito quieto, podia contar que ele estava sentado no banquinho do piano olhando as teclas brancas e pretas, com as mãozinhas presas no vão das pernas.

__ Felipe, O que você está fazendo?

__ Estou escutando música. __ ele respondia ___  Uma música que só ele ouvia.

Quando minha mãe faleceu. Felipe tinha 9 anos de idade. Foram dias muito dolorosos para nós. Meu pai (cardíaco) me causava muita preocupação. Várias noites eu acordava e ia até seu quarto ver se ele estava bem, várias vezes vi Felipe no escuro, no meio da noite sentado olhando o piano em silencio. No início achei que ele estava tendo crise de sonambulismo…. Fiquei preocupada…. Arrisquei um dia a chegar perto. Nunca tinha chegado antes, afinal minha avó dizia que não se pode acordar quem está tendo crise de sonambulismo…. Eu sempre ficava de longe esperando ele voltar sozinho para a cama e se deitar e  naquela noite eu fui…. Toquei seu ombro, ele se virou para mim

__ Sinto falta de ouvir vovó tocando o piano…

Foi aí que eu vi que ele não era sonambulo. Foi aí que vi que ele sentava ali para chorar duas saudades…. Abracei meu filho e dormimos juntos aquela noite… Chorando de saudades.

Um ano depois da morte de minha mãe, meu pai resolveu refazer sua vida e escolheu para desempenhar um papel importante nesse “refazer” uma mulher que só de pensar nela eu ARREPIO e sinto NAUSEA até hoje (que Deus me perdoe…). Para ela entrar na vida de meu pai nós tivemos que sair…Sair da vida dele, da casa dele…

Ficamos de longe, esperando a hora de voltarmos e reassumirmos o nosso lugar; mas eu não ia deixar o piano de minha mãe na casa daquela mulher.

Leatrice não estava preparada para aprender a tocar piano, nem demonstrava interesse… Já Felipe…. Quando saia de casa e não avisava onde ia, podia contar que estava em frente à casa de meu pai, esperando a mulher sair para entrar nela rever o primo e se sentar ao banco do piano e ficar olhando as teclas,mudamente, num silencio que emocionava quem visse. Quem me contava isso era minha prima que trabalhava como doméstica na casa de meu pai.

Na época eu trabalhava em três escolas e ainda administrava uma casa de carnes (CASA DE CARNES PRIMAVERA) onde tinha um escritório que cabia o piano de minha mãe, já que eu e meus filhos e a Tia Maria (que com a morte de tio Costa eu tinha assumido como minha nova filha, ela tinha 80 anos) havíamos mudado para um prédio de apartamentos (ANACHE) e o piano não cabia no elevador… Eram 6 andares. Deixei o piano de mamãe no escritório da casa de carnes.

Felipe logo demonstrou interesse em me ajudar na administração da Casa de Carnes. Ele tinha na época 10 anos de idade, não gostava muito de estudo, e eu não tinha tempo para ele … (uma das maiores culpas que carrego em meu espirito) afinal eu tinha mais de 600 alunos para me preocupar…

Um dia o meu açougueiro faltou o serviço e eu fiquei na parte da manhã na Casa de Carnes. Faltei a escola na parte da manhã. Liguei para meu pai.

__ Pai o senhor pode ficar na Casa de Carnes à tarde para mim? Não posso mais faltar a escola…

Papai foi para a Casa de Carnes, eu não podia deixar Felipe sozinho lá afinal ele tinha só 10 anos de idade.

Naquele dia os professores da cidade começaram uma greve por tempo indeterminado, sai cedo da escola e fui direto para a Casa de Carnes. Quando estacionei perto ouvi o piano de mamãe sendo tocado. Uma revolta se apoderou de mim. Entrei como uma leoa na Casa de Carnes. Quem seria o atrevido ou a atrevida que ousava estar tocando no piano que fora de minha mãe e que agora é de minha filha? …

Papai me viu entrando e sorriu.

__ Quem está no piano de mamãe? __perguntei furiosa.

__ Felipe! __ Papai respondeu.

Senti meu corpo gelar. Parei. Não conseguia dar um passo sequer. Fiquei ouvindo… Meu filho de 10 anos tocando a música de Tom Jobim “DINDI” como se tivesse sido composta por ele. Com uma musicalidade… com um sentimento que me arrancou lagrimas no mesmo momento. Passou um filme em minha cabeça… ele olhando o piano mudamente desde os dois anos de idade…. Em que momento ele teria aprendido a tocar? Com quem?  A única pessoa que tocava aquele piano era minha mãe, e quando ela faleceu ele tinha apenas 8 anos. Quando viva ela nunca ensinou ele tocar piano…. Infelizmente (uma dor que carrego comigo) minha mãe nunca teve tempo para meu filho …

Cheguei devagar, para não atrapalhar. Felipe tocava arrepiado… e quando terminou abriu os braços e abraçou as teclas.

Quando percebeu minha presença, tremeu de medo.

__ Eu não toco mais mãe. Juro!

__ Toca sim, meu filho. Toca sempre que quiser tocar. O piano é seu. Ele escolheu você.

Nunca!! Absolutamente ninguém, nunca mostrou para ele onde ficavam as teclas que produziam o som das notas…

Nunca!! absolutamente ninguém, nunca ensinou, tempo, ritmo, acorde ou harmonia. Nada!

Ninguém humano, só o único professor que ele teve, chamado:

TALENTO (também conhecido como DOM DIVINO)

 
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Publicado por em 27 de abril de 2015 em MEUS ESCRITOS

 

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A BEATA DA CAPELA


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Nunca um dia era diferente do outro, era sempre a mesma coisa. Ela orava fervorosamente todas as manhãs naquela mesma capela. Mal o dia amanhecia e a “beata da capela” já cruzava o jardim da Independencia em Corumbá para  alcançar a rua 13 de junho e depois a Antonio Maria e finalmente junto ao antigo ponto de ônibus encontrar a capelada Matriz Nossa Senhora da Candelária.

Os aposentados frequentadores da praça da Independencia já sabiam que ela iria cruzar por ali, saída não se sabede onde,visto que bem em frente à praça tinha a igreja Nossa Senhora Auxiliadora, mas a esta ela não frequentava… tinha que ser a Matriz. E os “desocupados” até já conheciam o “toc-toc” de seus passos ligeiros e miúdos.

Não houve um só dia de calor ou frio, de tempestade ou vento forte que a privasse do ritual. Alguns se perguntavam se “ a beata da capela” seria um ser vivente desta ou de outra dimensão…

O que parecia é que ela rezava fervorosamente todas as manhãs quando o dia ainda bocejava sonolento suplicando por um milagre que nem ela poderia demensionar  a urgência e a importância…

Impressionava o olhar perdido com que ela passava pelos “madrugadores-do-fazerabsolutamentenada” e parecia não divisa-los em sua habitual “jogadadeconversafora”.

Mas naquela manhã fria de 23 de julho, a “beata da capela” não cruzou a Praça da Independencia. Os “jogadores-de-dominó” não ouviram seus passos… não observaram seu olhar perdido, não a viram surgir do nada no meio da praça nem a viram dobrar a esquina da rua 13 de junho com a Frei Mariano rápidamente.

Burburinhos surgiram.Onde estaria a beata da capela? O que teria acontecido de tão importante que não permitira que ela fosse cumprir o seu ritual de reza? Teria adoecido? Teria viajado? Teria perdido a hora?

Já aproximava-se o cair da tarde. E meia dúzia de curiosos juntaram-se aos aposentados da praça. Eram vendedores das lojas da 13de junho, eram cobradores de ônibus que circulavam pela Antonio Maria. Todos queriam saber da “beata da capela”. Ficavam um olhando para o outro sem arriscar a pergunta: ___ Alguem viu a beata hoje? ___ Mas ninguém se arriscava embora todos quisessem saber afinal o que de tão grave a impediu a sagrada visita matinal da “beata da capela” ao Jardim da Independência ?O que teria feito a “beata” nessa manhã de inverno tão rigoroso quanto o verão na região do pantanal de Mato Grosso do Sul?

De repente um dos aposentados que estava no local tomou a iniciativa:

__ Vamo dexá de lero-lero. Vamo lá a igreja falá com o padre. Ele tem que dá noticia se a beata foi hoje rezá, o se não foi. Afinar ele deve sabe max que nóx

Não foi preciso mais argumentos… Num piscar-de-olhos a procissão de curiosos deixou a praça e ganhou a rua. Carros pararam, sinaleiro deteve-se entre a ordem de seguir e de parar e a quase multidão tomou o rumo da igreja. Ao dobrarem a esquina da alameda Helo Hurt , puderam ver a multidão em frente a matriz Nossa Senhora da Candelária.

Com o terço na mão uma senhorinha balbuciava sua reza. Dedos nervosos de uma outra senhora coriam entre as contas mostrando que ela não seguia a guia das contas do rosário… O que teria acontecido afinal?

Na escadaria da igreja, vestindo um espaço vazio, estava o vestido de flores brancas em fundo preto, o véu cobria uma cabeça imaginária, o terço solto no chão.

A “beata da capela” despira-se de sua penitencia e sumira da mesma forma que aparecia no meio da praça com passos miúdos e rápidos para suas orações matinais durante anos a fio…

 

( AUTORIA DE MARLUCI BRASIL)

 
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Publicado por em 13 de novembro de 2014 em MEUS ESCRITOS

 

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