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Arquivo da tag: LIÇÕES DE MINHA AVÓ

ATITUDES


 

lider-martelo

Quando eu tinha meus 14 anos de idade, fiz amizade com uma garota que tinha recém mudado para uma vila de casas antigas que ficava na rua América em frente ao lugar em que hoje é o Posto Paulista. O nome dela era Rosemary, mas todos a chamavam de Rose.

Rose tinha a mesma idade minha, entretanto seu aniversário era em setembro e o meu em março.

Rose era uma menina bonita e todos os meninos da vizinhança olhavam para ela com uma admiração que eu sonhava que um dia olhassem para mim.

Rose era moderninha para a época. Fumava e bebia latinha de Skol (escondido é claro _ foi com ela que experimentei pela primeira vez o cigarro e o sal e limão na borda da latinha de cerveja).

Alguns anos mais tarde fiquei sabendo que o irmãozinho de Rose não era irmãozinho dela, era seu filho. Um menino de 1 ano de idade, lindo!!!

Rose era tudo o que eu queria ser. Bonita, magra, popular e divertida.

Mamãe implicava com nossa amizade. Várias vezes me deu bronca quando chegava em casa (vindo de seu trabalho na escola como professora) e não me encontrava porque eu estava passeando com a Rose.

Muitas vezes “matei aula” para ir com minha amiga passear no porto geral. Lá, eu ficava cuidando os guardinhas enquanto ela só de calcinha tomava banho no rio… O perigo era divertido.

Um dia mamãe chegou em casa muito brava e me colocou de castigo. Eu cantava no coral do GENIC e ela não me deixou ir ao ensaio. Antes de ir para a escola, me levou para a casa de vovó Lucinda e recomendou que minha avó não me deixasse colocar “o nariz na janela”.

Fiquei chorando na sala. Vovó fechou a porta quando mamãe saiu e sentou-se em minha frente, esfregando as mãos ainda molhadas no vestido de desbotado.

_ Mamãe é preconceituosa, vó! A mãe da Rose vive falando pra ela que eu sou a amizade certa para ela, mas mamãe acha que ela não é a amizade certa para mim. Rose é legal, ela não ri de minha gordura, ela me defende quando me chamam de gorda. Por que mamãe não gosta dela?

_ Essa Rose que você fala, te defende?

_ Sim. Ela é minha amiga!!!!

_ Que bom Marluci, isso mostra que nem todo mundo tem só lado ruim. Esse é um lado bom dela e eu vou conversar com sua mãe sobre isso.

_ Mas mamãe é ruim, ela acredita no que falam da Rose.

_ É que onde tem fumaça tem fogo.

_ Mas é mentira vó. Só porque a Rose fuma?

_ Tá vendo? Fumaça e fogo!

_ Mas é de cigarro!

_ Cigarro não é do bem.

_ Mas a vovó Alvina ( mãe de meu avô Castro)  fuma, tio Carlinhos também fuma  e mamãe também.

_ É o lado ruim deles.

_ Não entendo. Se mamãe também tem esse lado ruim, por que ela implica com o lado ruim da Rose?

_ Porque atitudes são contagiosas.

Fiquei olhando nos olhos de vovó por um bom tempo e ela me olhou também, nossos olhares se misturaram e a frase dela ficou martelando em minha cabeça…

Dias depois eu disse para vovó

_ Vó, aquilo que a senhora falou pra mim não sai de minha cabeça. Sobre a atitude ser contagiosa… Eu também não posso ser contagiada pela atitude de mamãe de fumar?

Ela parou de lavar a louça veio em minha direção mancando por causa de seu problema na perna. Segurou meu queixo. Levantou meu rosto e me olhou no fundo dos olhos.

__ Se você pensar como martelo, vai tratar todo mundo como se fosse um prego!

(Desde então duas frases se repetem em meu pensamento antes das atitudes que tenho que tomar)

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Publicado por em 18 de maio de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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TARUMÃS


Taruma do cerrado vitex polygama mudas

Minha irmã Marcia me contou que mamãe estava triste. Tinha acontecido alguma coisa no serviço de nossa mãe e isso tinha provocado muita dor de cabeça nela, talvez fosse de tanto chorar. Mamãe sempre tinha fortes dores de cabeça.

Fui até o quarto e a encontrei deitada e com uma toalha de rosto dobrada cobrindo seus olhos.

Talvez ela estivesse dormindo.

Fiquei em pé ao seu lado observando a sua respiração. Percebi que ela chorava. Era um choro contido, abafado, escondido…

Arrisquei uma opinião e falei quase num fio de voz:

_ Vai na casa de vovó mãe. Conta pra ela que passa.

Mamãe tirou lentamente a toalha do rosto e ficou me olhando…  Não sei precisar quanto tempo, só me lembro que chorei ao vê-la chorando.

Sentou-se na cama.

_ Você vai comigo?

(óbvio que eu iria)

Consenti com um movimento de cabeça.

Ela levantou, pegou a chave da rural azul e branca , me tomou pela mão e fomos para a casa de vovó Lucinda,

O percurso foi feito em silencio.

Entramos na casa de vovó, e ela estava no tanque de lavar roupas colocado na direção da pequena escada que dava acesso ao quintal e ao seu quartinho de orações.

Vovó parece que sentia minha presença. Ela estava de costas para mim, mas parou o movimento de esfregar a roupa nas ondas da pia de cimento. Tudo ficou suspenso no ar.

Virou-se e me olhou…

_ Vó, vai ajudar mamãe. Deixa que eu lavo a roupa para a senhora.

Ela enxugou as mãos e passou por mim subindo os lances da pequena escada de 4 ou 5 degraus, passou a mão na minha cabeça e me disse:

_ Eu termino meu serviço quando acabar de falar com sua mãe. Vai ser uma conversa de mãe e filha. Fique aqui, o pé de tarumã está cheio, aproveita e vai chupar tarumã. Você gosta.

Sorri para ela. E ela foi pelo corredor mancando. Observei que a ferida na sua perna esquerda envolvida num pedaço de pano, sangrava. Vovó tinha uma ferida feita pelas varizes que estouraram e que não fechava, era um buraco horrível, escuro e arroxeado.

Sentei num dos degraus e fiquei chupando tarumãs…

Sempre fui uma criança curiosa. Não me aguentei e fui passo a passo, como uma felina em caça, tentando aproximar-me para ouvir o que tinha acontecido com mamãe. Ah!!!!!! Se eu descobrisse quem tinha feito mamãe chorar, haveria de conhecer a minha fúria.

Não ouvi a voz de minha mãe, só ouvi vovó dizendo:

_ Quando temos problemas é comum pedir a Deus que ele nos ajude. Mas você tem que ter cuidado com o que pede e como você pede. Se você pedir como Elias pediu, você pode não entender o que Deus vai fazer.

… (Meu santo Jesus!!!! Quem era esse tal de Elias? Será que era ele quem fez mamãe chorar?)

_ Elias tinha medo da rainha que queria mata-lo e ele clamou que Deus o ajudasse e acabasse logo com aquilo. Ele queria se ver livre.

… (Que rainha? De quem vovó estava falando?)

_ Deus mandou um anjo para adormecer Elias e ele não ver o tempo passar e nem acabar com o medo. Mas o pior aconteceu, a rainha acabou mandando cortar a cabeça dele.

… (Meu Deus!!! A tal rainha era uma assassina!!! Coitado do tal Elias)

_ Temos que pedir com paz no coração, sem raiva, sem mágoa, só assim Deus atende com calma também. O medo e a raiva sujam os pedidos da gente. Deus não atende pedidos sujos de sentimentos ruins. Seja humilde ao pedir, dobre seus joelhos, DE JOELHOS NINGUEM TROPEÇA.

Voltei aos tarumãs pensando na rainha e no tal Elias…

Devo ter chupado uma bacia-de-rosto cheia de tarumãs. Quieta… Passando a mão pelos joelhos…

 

 
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Publicado por em 10 de maio de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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PALAVRAS E ATITUDES


 

Aprendi com minha avó Lucinda que as palavras e as atitudes mostram o caráter das pessoas, mas que são as atitudes que escrevem nosso destino. Assim, fica fácil entender que somos responsáveis pela vida que temos.

Qual tem sido o erro do eleitor em todos os pleitos eleitorais? Acreditar nas palavras dos candidatos? Sim porque depois de eleitos as atitudes não condizem com as palavras que nos convenceram a dar-lhes o voto de confiança…

O que fazer então? O que é votar certo? Como não errar na hora de escolher? Na verdade, eleger alguém é dar um tiro no escuro.

Vovó me dizia que culpar os outros pelo que nos acontece é cultivar a ilusão.

A Pedagogia nos ensina que a aprendizagem é nossa e ninguém poderá fazê-la por nós, assim como nós não poderemos fazer pelos outros.  Olhando esses dois ensinamentos acredito que quanto mais depressa aprendermos isso, menos sofreremos.

O certo é que cada pensamento nosso, no qual colocamos crédito, provoca uma atitude; afinal nossas atitudes são frutos de nossas crenças. Agimos de acordo com elas.

Vovó me dizia: “Olha Marluci nossas atitudes são nossas e a lei do Retorno é de Deus. Nós podemos mudar nossas atitudes, mas a lei do retorno só Deus pode mudar e ele é tão perfeito que o que ele cria não precisa de mudança. Pensa que cada atitude que a gente tem provoca energia se movimentando em redor da gente e isso cria uma reação. Mais ou menos como quando cai chuva num lago de aguas calmas qualquer gota movimenta a água. Nossas atitudes são as aguas da chuva e as águas do lago representam a nossa vida. Toda atitude nossa tem, portanto, uma resposta da vida.”

Penso nas lições de minha avó e concluo que se mudarmos nossas atitudes elas podem apagar o efeito negativo nas ondas de nossas vidas. Se estamos enfrentando ondas gigantes, redemoinhos, são as atitudes negativas que temos diante da vida. E se não conseguimos mudar a vida, podemos mudar as nossas atitudes que estas por si só modificarão a vida apagando e substituindo as energias negativas que emitimos anteriormente. Por melhor que tenham sido as nossas intensões.

O certo, dizia vovó é que as palavras têm que ser condizentes com as atitudes, senão vira essa bagunça que está acontecendo aqui na capital

Se nossas palavras são filamentos sonoros revestidos de nossos sentimentos, a nossas atitudes são o resultado de expressões assimiladas e determinadas pelo nosso comportamento mental.

Acreditamos. Não somos culpados… Não é errado acreditar… É arriscado, mas errado não é.

Se acreditamos nas palavras dos eleitos e as atitudes deles nos mostram que fomos enganados…

Quando dizemos: Não vou reeleger ninguém! Temos que cumprir a nossa palavra e ter a atitude do NÃO!!!

 

 

 

 
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Publicado por em 13 de janeiro de 2018 em MEUS ESCRITOS

 

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Justiça em segredo


Meu avô materno sempre foi o “cérebro” de minha família.

Vovô Castro sabia que sabia das coisas e da vida e ele sabia que nós sabíamos que ele sabia… (gostei dessa frase…rs)

Uma vez numa conversa depois do jantar ele e tio Carlinhos continuaram à mesa a conversar.

Minha mãe e meus primos já estavam fora da copa, alguns na sala, outros na calçada. Eu podia ouvir a conversa deles, mas quando Vovô Castro ficava conversando com alguém eu sempre ficava por perto, ele percebia a minha presença, mas fingia não perceber. Ele sabia que eu iria ali ficar sorvendo suas frases, seu jeito de argumentar, sua forma de analisar as situações. Vovô Castro era um “Delta Larousse”…

Vovó Lucinda na cozinha, lavava as vasilhas do jantar…

_ O fato é que ele pediu para que eu fizesse a defesa para ele. Eu estudei o caso e escrevi a defesa. Mas o advogado é ele, eu sou tabelião _ Tio Carlinhos reclamava.

_ Não devia ter seguido esses passos que dei Carlinhos. Eu já lhe falei que esse foi um dos grandes erros que cometi em minha vida… (vovô ponderava)

… (Vovô errando? Isso soava mal aos meus ouvidos. Vovô sabia tudo! Vovô não errava)

_ E depois ele vem contar vantagem porque ganhou a ação, e ainda vem contar para mim, e fala da forma que ganhou, recita para mim trechos da defesa que EU ESCREVI PARA ELE e o faz como se fosse dele…

Tio Carlinhos estava indignado…

Arrisquei…

_Tio Por que você não conta para todo mundo que foi você que escreveu para ele ler no tribunal?

Os dois pararam, se entreolharam…

Vovô franziu o cenho…

__ Não se mete em conversa de adulto, Marluci. Vá brincar com seus primos.

Levantei envergonhada e me dirigi para sala …

__ Marluci

Ouvi a voz dela, parei imediatamente e virei-me ansiosa eu sabia que viria uma pérola …

__ Quando você quiser que o mundo saiba de alguma coisa, escolha a pessoa certa, conte para ela e peça segredo!

Tio Carlinhos olhou para minha avó e sorriu…

Levantou-se da mesa, passou ao meu lado com um sorriso largo nos lábios e piscou o olho para mim…

 

 
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Publicado por em 31 de dezembro de 2017 em MEUS ESCRITOS

 

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Diante do desmerecimento


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O caminho da escola até a casa de minha avó Lucinda foi feito debaixo de sol quente. Em Corumbá era assim… 8 ou 80.

Cheguei sem muitos sorrisos. Estava magoada.

Sentei-me à mesa e devorei o prato de macarronada com molho de almondegas ( ela sempre fazia , sabia que eu gostava).

Depois quando todos já tinham se levantado da mesa eu ainda continuei ali, espetando uma rodela de tomate no prato com o palito de dentes.

Percebi que ela me olhava “de canto”.

Eu sabia que ela vinha falar comigo, saber o que houve, me dar seus sábios conselhos…

Sentou-se ao meu lado:

__ Quer doce de tarumã?

_ hum rum…..

Ela colocou num copo e trouxe a colher, sentou-se ao meu lado e ficou me olhando comer o doce com um olhar lindo…..

_ Comendo com essa amargura você vai amargar o doce….

Comecei a chorar…

_ Eu fiz o trabalho de irmã Lurdes sozinha… Puz o nome de Fátima , ela não fez nada… Mas eu puz porque ela tava doente.

_ Fez bem! Isso é prova de amizade.

_ É mas hoje professora Sheila marcou trabalho em dupla e pôs eu e ela. E ela foi dizer pra professora que não queria fazer o trabalho comigo.

Vovó se ajeitou no banco….

_ Hum… e por que?

_ Ela falou que eu nunca sei nada. Que eu sou pelego…

Os olhos de vovó se amiudaram…

_ É assim mesmo, Marluci… Você tem que aprender a lidar com essas situações. Faz o trabalho sozinha.

_ Mas vó ela falou que eu não sirvo pra fazer trabalho com ela, como que ela pode?

_ Não importa como ela pode fazer isso com você, o fato é que ela pode. __ levantou-se , deu dois passos e virou para acrescentar essa pérola que até hoje eu carrego em minha lembrança quando sei que alguém fez uma critica negativa a meu respeito:

__ Lembre-se : NA BOCA DE QUEM NÃO PRESTA, QUEM É BOM NÃO VALE NADA!

 

OBS: obrigada vovó.

 
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Publicado por em 8 de agosto de 2017 em MEUS ESCRITOS

 

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O olhar


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Cheguei na casa dela estava anoitecendo…

_ Vó, soube da filha de sua amiga?

_ Qual?

_ Aquela que faz bolo-de-arroz pra vender.

_ Sim. Ouvi na rádio.

_ Porque ela se matou vó?

_ Por desespero, por raiva, por tristeza. A gente nunca sabe o que vai no coração das pessoas.

_ Mas ela era tão alegre… Lá na escola ela ficava rindo o tempo todo. Ela que tinha mais amigas lá. Todo mundo queria sentar na escadaria ao lado dela. Ela vivia rindo…

Minha avó parou seus afazeres para conversar comigo ( ela sempre fazia isso).

_ Isso não quer dizer nada Marluci. Quando uma pessoa fica rindo não significa que ela está alegre ou feliz.

_ Não entendo vó .

_ Olha nos olhos da pessoa que te sorri. Se eles estiverem sorrindo pra você ai você acredita no sorriso dos lábios. Não adianta a boca sorrir se os olhos choram e pedem socorro.

Fui correndo para o espelho e me olhei nos olhos…

Pensei numa coisa engraçada e dei risada olhando nos meus olhos e eles sorriam para mim…

Pensei numa coisa triste e dei risada… meus olhos estavam opacos, sem brilho, sem vida… eles choravam para mim…

Como é que vovó sabia disso tudo?

 
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Publicado por em 26 de julho de 2017 em MEUS ESCRITOS

 

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DESCASO


_ Que cara é essa Marluci?
_ To besta vó.
_ Com o que?
_ Com o descaso da Carmem
_ O que ela fez desta vez?
_ Mamãe trouxe de presente pra ela, uma blusa linda , la de São Paulo. Eu queria a blusa, mas mamâe falou que tinha comprado para Carmem e não me deu. Deu pra ela , e ela nem agradeceu.
_ E você tirou o que de lição disso tudo?
_ Como assim, vó?

Ela parou de lavar a louça e voltou-se para mim. Veio enxugando as mãos… Fez um afago em minha cabeça e disse:
_ Algumas pessoas existem para nos ensinar a não ser como elas.
….

( Carmem é um nome fictício)

 
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Publicado por em 24 de julho de 2017 em MEUS ESCRITOS

 

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