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Arquivo da tag: LIÇÕES DE MINHA AVÓ

A lição do Rio


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Uma semana pensando em vovó Lucinda…

Uma semana me perguntando o que ela me diria sobre o momento que estou passando…

A lembrança de menina, encolhida diante da realidade assustadora mas que “assustadoramente” não me parece fatalidade, ou decreto, ou castigo, ou algo REALMENTE GRAVE, adormece feito feto …

Forço a memória, ela está entorpecida, sonolenta…

Não consigo… Deito-me em minha cama, jogo “paciência” no celular e espero o sono chegar… Nem percebi quando fechei os olhos.

Sentada na poltrona ao lado de minha cama, observo meu corpo adormecido…

_ “Estou dormindo”_ pensei…

Senti a mão passando pelos meus cabelos, olhei para o lado e para cima. Uma especie de portal de luz se fazia junto ao bico-de-lampada no teto de meu quarto.

Vovó Lucinda estava em pé ao meu lado, acariciando meus cabelos…

_ Eles vão cair vó?

_ Se cair, outros nascerão! __ e sorriu para mim.

_ E meu peito?

_ Ele já cumpriu sua missão, te fez mulher, te fez mãe, até serviu de proteção para seu coração contra as pancadas que a vida dá na gente.

Olhei para meu corpo adormecido… Olhei para ela…

_ Vão me entubar de novo vó?

_ Você não vai nem ver, nem sentir.

E continuava me acariciando os cabelos.

_ Vou morrer vó?

Segurou meu rosto com as mãos, levantou meu queixo…  Senti o cheiro de tempero caseiro em suas mãos. Senti a pele fina dos seus dedos…

_ A vida é um rio, tem nascente e morre numa coisa maior, o mar. Lá ele se junta com outras vidas, formam a vida universal, evaporam e caem feito chuva, alimentam a cabeceira da nascente e se tornam rio novamente e tudo se repete… Sabe porque o rio nasce, nasce e nasce e nasce?

Olhei pra ela embevecida… Lá vinha um novo ensinamento.

Meu corpo se mexeu na cama ao meu lado; desviei o olhar para ele e ela me pegou pelo queixo novamente me forçando a olhar nos seus olhos miúdos com um brilho diferente do que eu me lembrava…

Continuou__ Porque ele aprende a lidar com as pedras que surgem pelo seu caminho. Ele contorna. Ele alisa as pedras ásperas a cada vida nova, ele acaba diminuindo aquilo que está lá, duro como pedra, porque É PEDRA (frisou a entonação da voz) e ele segue seu caminho.

_ As pedras são as provações né vó?

Ela assentiu com a cabeça e continuou.

_ Se tem um baque, um susto, uma dor muito forte ele salta, ele cai…. Uma coisa que joga o rio para baixo entende? Ele desce com força, ele corre, ele vira cachoeira se for preciso, mas ele continua seu caminho; depois do perigo da queda passada ele se acalma… fica lisinho… sai alimentando de vida aquilo que está nas margens… até encontrar o mar…

_ Mas Vó, tem rio que não encontra o mar.

_ Esses, vão por baixo da terra… cavam a sua cova e no fim… acabam no mar também.

Como ela podia pensar isso tudo? Como ela podia ter uma visão dessa? Com quem ela aprendeu essas comparações? Ela não tinha estudo… Lembro dela desenhando vagarosamente seu nome… Em que escola vovó Lucinda estudou?

Ela passou a mão em meus cabelos e completou.

_ Preciso voltar para minha dimensão Marluci. Volte você também. Não se afaste de seu corpo. Respeite seu tempo de vida. Não vou sair daqui enquanto você não voltar.

Olhei para meu corpo adormecido, eu estava pálida… minha respiração parecia não existir… fechei os olhos, suspirei fundo… quando abri novamente senti um torpor… o quarto estava escuro e vovó não estava mais ali… Olhei para a cadeira-poltrona vazia ao lado de minha cama… O cheiro de tempero caseiro ainda estava no ar…

_ Obrigada Senhor!!!! Gratidão eterna!!! Sua benção vovó!

Ouvi a resposta.

_ Deus te abençoe!

 
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Publicado por em 29 de novembro de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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RESPONSABILIDADE PESSOAL


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Quando algo não dá certo (segundo nossas expectativas) muitos de nós costumamos colocar a culpa em outras pessoas e quase nunca em nós mesmos.
O caro não funciona? Foi o mecânico que não fez um bom serviço.
Eu não fui compreendida corretamente? Foi você que não prestou atenção.
E por ai vai…
Esse tipo de pensamento acusador tornou-se extremamente comum em nossa cultura. Se formos colocar isso a nível pessoal, esse raciocínio vai nos levar a crer que nunca somos completamente responsáveis pelas nossas próprias ações, problemas e felicidades.
Quando temos o hábito de culpar aos outros, todas as nossas raivas, frustrações, depressões, stress e infelicidade são culpas das pessoas que nos cercam.
Não estou falando que quem nos cercam nunca tenham nada a ver com nossos problemas, Mas sempre?
Lembro uma frase de minha avó Lucinda: MARLUCI, O ACASO NÃO FAZ A PESSOA, APENAS REVELA QUEM ELA É.
Culpar aos outros desprende enorme quantidade de energia, gera stress e doenças.
Culpar faz com que tenhamos sentimento de fraqueza diante nossa própria existência, porque nossa felicidade passa a ser dependente das ações e comportamentos dos outros.
Quando paramos de culpar os outros, recuperamos o nosso senso de força pessoal.

 
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Publicado por em 12 de agosto de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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primeiro-passo-200x177 Minha escola (GENIC) estava na final dos jogos estudantis da cidade. E o jogo de volleyball ia ser na nossa quadra, estávamos fazendo bandeirinha, chocalhos, afinando os instrumentos da fanfarra. Todas as meninas se concentravam em Susan Meire, Biluca e Mariângela. Todas as meninas queriam ser uma delas (inclusive eu). Elas eram as melhores jogadoras de vôlei da cidade e Susan, a mais bonita e cobiçada de todas.
Su (como eu a chamava) era atenciosa com todos que chegavam perto dela, mas naquele dia estava diferente, concentrada, quieta… Eu a vi sentada no batente da gruta de Nossa Senhora, entre as folhagens e a arvore de jasmim que fazia uma sombra cheirosa. Fui lá falar com ela.
__ Você está bem? __ Perguntei.
__ Não __ ela respondeu, levantou-se e foi sentar em outro lugar me deixando sozinha sem entender o que tinha acontecido.
Perdemos a final. Susan jogou mal, cortava na rede, demorava para fazer o bloqueio, errava os saques… Teve até vaia … Ninguém entendia o que estava acontecendo com ela.
Quando o jogo terminou, fui como sempre para a casa de vovó Lucinda. E já cheguei procurando por ela:
__ Vó! Vó! Cadê você?
__ No quartinho rezando __ me respondeu Dirce que lavava as louças na cozinha.
Fui até ela. Entrei e me sentei no banquinho de madeira que tinha no seu quartinho de orações enquanto ela de joelhos recitava a novena de MENINO JESUS DE PRAGA. Como sempre ela pedia por tio Eca, para que ele parasse de beber e cuidasse da saúde.
Quando ela terminou sua novena levantou-se do chão e sentou ao meu lado.
__ O que aconteceu? __ me perguntou.
Contei para ela, com a garganta apertada, meio querendo chorar. (Eu sempre chorava perto de vovó, a presença dela me emocionava).
_ Olha _ me disse ela_ não é sempre que estamos bem, as vezes acontece coisas com a gente, que a gente não quer contar para ninguém. São problemas pessoais. Sua amiga queria resolver os problemas dela, deixa ela sozinha. Quando ficamos sozinhos a gente consegue ouvir a voz do nosso coração. Se você não fez nada para ela ficar zangada com você, então tá tudo bem.
_ Não fiz, vó! Apressei-me a dizer.
__ Então ótimo. Não sofra por isso.
__ Mas vovó ela não quer nem ficar perto de mim, será que fizeram fofoca de mim pra ela?
__ Quem faria isso?
__ As meninas que não gostam de mim.
_ Mas ela não é sua amiga?
__ É sim
__ Marluci, você, eu to vendo que é amiga dela, mas eu perguntei se ela é sua amiga. Se ela já te deu provas de amizade sincera.
_ Já vovó.
_ Então aguarde. Fica tranquila. Reza para o anjo de guarda dela e para o seu anjo de guarda, os dois anjos se entendem e aproximam vocês.
_ Mas vovó…
Ela sorriu e me deu um cascudo carinhoso.
__ Olha se isso está te deixando tão incomodada, vá falar com ela, agora que ela perdeu o jogo deve estar mais frágil ainda. Deve estar precisando de uma amiga.
_ Mas eu tentei e não adiantou nada
_ Tenta de novo.
_ Eu não!!! E se ela me tratar de novo daquele jeito?
_ Você acha que ela faria isso?
_ Não sei…
_Se você não sabe então dê o primeiro passo para saber o que está acontecendo com sua amiga.
_ Dar o primeiro passo não vai adiantar nada, ela não vai falar comigo __ respondi com pessimismo e dor adolescente.
_ Engano seu. O primeiro passo é sempre o Primeiro Passo. Ele é muito importante, Ele pode até não te levar a lugar nenhum, mas ele te tira do lugar onde você estava.
Olhei para ela… De onde ela tirava aquela sabedoria toda?
Fui para casa e no caminho passei na casa de Susan, dei o primeiro passo, o segundo, o terceiro ajudei minha amiga no que a estava atormentando e nossa amizade se firmou ainda mais.

 
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Publicado por em 17 de julho de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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Fôlego


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Não sei precisar que mês era, que dia. A memória já começa a me trair de forma constrangedora, mas é engraçado como as palavras vão brotando pelos meus dedos, e eu as escrevo, uma a uma e a lembrança vai descortinando o fato adormecido no travesseiro do passado.

Eu devia ter mais ou menos 13 anos de idade, estávamos discutindo na sala da casa de vovó Lucinda, eu e minha prima Luciana. Não me lembro o porquê, só sei que discutíamos. Luciana tentava argumentar e eu alterada falava sem parar e batia o pé no chão (cheia de birra).

Vovó veio até nós duas enxugando as mãos no avental quadriculado. Me pegou pela mão e me olhou profundamente. Minha prima entendeu o recado e foi para os fundos. Vovó apontou a cadeira para mim e eu me sentei obedientemente.

_ Tome fôlego antes de falar. __ ela me disse.

Fiquei sem chão. Eu esperava um interrogatório a respeito do porquê discutíamos eu e minha prima.

E ela continuou:

__ Tome fôlego para aprender a ser mais paciente. Sua prima é mais criança que você e você tem que ser paciente com ela.

_ Mas vó… (tentei argumentar)

_ Não me interrompa! Aprenda a ouvir.

E ela tomou o fôlego que eu precisava ter tomado.

_ Respire, e só fale depois que a pessoa que estiver falando com você acabar de falar. Só assim você vai entender o que ela falou. Enquanto você ouvir a voz dela misturada com a sua, o seu pensamento vai ficar confuso. É assim que nascem os mal-entendidos que acabam em confusão. No inicio você vai achar que demora muito tempo, mas aos poucos você vai notando a diferença, você vai ganhando respeito de quem tá falando com você. Saber ouvir é muito bom. Evita males maiores.

Nesse momento minha respiração já estava menos ofegante… Alguns segundos (quase minuto) eu ouvindo minha vozinha e eu já me sentia menos mal… Ah!!!! Ela sempre me fazia tão bem!!!!!!

_ Observe as pessoas calmas ao seu redor, Marluci. Presta atenção nelas. Elas esperam a vez para falar. Isso não é covardia, é sabedoria. Se você ficar falando “hum rum”, “eu sei, mas”, você só vai estar apressando a pessoa pra terminar logo o que ela está falando e vai estar atrapalhando ela falar o que ela acredita que é importante falar. Fica quieta, olhe ela nos olhos e ouça. Não se preocupe que a sua vez de falar vai chegar. Dialogo, conversa de gente educada é assim.

Não consegui conter a emoção e abracei vovó pela cintura. Comecei a chorar. O cheiro de alho misturado com cebola, entrou pelas minhas narinas e agora, neste exato momento em que escrevo esta memória, está em todos os meus sentidos… eu sinto o cheiro dela.

 
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Publicado por em 11 de julho de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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Bem-me-quer mal-me-quer


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Minha irmã estava apaixonada, o nome dele era Tadeu, não sei o que foi feito de Tadeu, nunca mais ouvi falar dele, só do irmão menor, o Edes, que acabou se casando com uma amiga de minha irmã, a Vânia.
Marcia vivia com os olhos perdidos no espaço, suspirando pelos cantos da casa e eu sabia: era por conta do Tadeu.
Comprou um caderno, vivia escrevendo escondida, as vezes chorando, as vezes com um sorriso preso nos lábios…
Eu precisava conversar com alguém sobre o que estava acontecendo com minha irmã.
Entrei na casa de vovó Lucinda com uma margarida na mão (peguei de um jardim no caminho que fiz até a casa dela).
_ Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer.
Ouvi vovó falando lá da cozinha (ela sempre estava ou no tanque de roupas para lavar, ou na cozinha) __ Vai dar mal-me-quer.
… E deu
_ Como a senhora sabia que ia dar “mal-me-quer “, vó?
_ Porque quem quer bem, não maltrata nem uma flor.
Senti um nó no peito e uma vontade incontrolável de chorar.
A culpa me prendeu ao chão. Não fui capaz de mover um passo. Ela percebeu o efeito de suas palavras em mim e veio ao meu encontro enxugando as mãos no vestido preto de bolinhas brancas…
Me pegou pelas mãos e levou-meu até o banco comprido de madeira que ficava nos dois lados da mesa da família.
_ Marluci, a flor é uma criatura de Deus. Tem vida. Deus deu a vida pra ela, não podemos tirar a vida nem de uma flor. Não podemos arrancar a florzinha do seio de família dela, que mora no jardim.
Comecei a chorar…
Limpou-me as lágrimas e continuou: __Não chore, você fez sem saber. Mas agora você já sabe. Se você quer dar uma flor para alguém, então dá uma flor brotinho e peça para a pessoa cuidar com amor, assim quem cuida vai estar cuidando da vida, vai estar lembrando do gesto de amor. Temos que ter cuidado quando queremos demonstrar amor. Quem não pensa com o coração corre o risco de demonstrar dor achando que está demonstrando amor. Entendeu?
__ Sim vó.
Ela voltou para a cozinha.
_ Você fica para o almoço? Vou fazer macarrão com molho de almondegas.
(Ah!!!! O macarrão com almondegas da vovó… Nunca mais comi igual)
_ Oba vó. Eu quero sim.
Continuei sentada no banco olhando ela fazer as bolinhas de carne moída com as mãos.
_ Vó.
_ Sim…
_Marcia, tá estranha.
Ela parou e me olhou com uma interrogação no olhar.
_ Acho que ela tá apaixonada
Ela riu e deixou cair uma bolinha de carne no chão (Mixe _ o gato _ pegou em questão de segundos)
_ Isso é bom.
_ Por que?
_ Porque ela está experimentando uma nova forma de sentir amor.
_ Mas ela não fala comigo.
Ela jogou um pano de prato em cima da vasilha com as almondegas para mosca e o Mixe não atacarem a carne e veio ela em minha direção novamente; sentou-se ao meu lado:
_ Amar é simples e é complicado ao mesmo tempo. Não são todas as pessoas que conseguem amar. Para amar é preciso entender o amor. É preciso tomar decisões, é preciso renunciar, é preciso aprender a ler o olhar, é preciso saber perdoar, é preciso recomeçar todo dia… E isso a gente aprende sozinha. A gente ensina pra gente. Dá tempo pra sua irmã. Ela está aprendendo a ser mulher de verdade e você um dia também vai aprender.
Olhei para ela. Ela olhou para mim… Segundos eternos se passaram naquela troca de olhar e ela continuou.
_ O segredo é não procurar o amor… Nunca tente encontrar o amor. Tenha paciência. Espere. Ele que tem que encontrar você. Quando saímos procurando o amor encontramos muita coisa que não é amor fingindo que é, e ai você sofre.
(Vó, não segui seu conselho… Procurei… Sofri…)
OBS: quando terminei de escrever esta lembrança veio uma frase em minha mente (com o tom da voz dela) _ Não desista! Espere!
 
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Publicado por em 12 de junho de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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ATITUDES


 

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Quando eu tinha meus 14 anos de idade, fiz amizade com uma garota que tinha recém mudado para uma vila de casas antigas que ficava na rua América em frente ao lugar em que hoje é o Posto Paulista. O nome dela era Rosemary, mas todos a chamavam de Rose.

Rose tinha a mesma idade minha, entretanto seu aniversário era em setembro e o meu em março.

Rose era uma menina bonita e todos os meninos da vizinhança olhavam para ela com uma admiração que eu sonhava que um dia olhassem para mim.

Rose era moderninha para a época. Fumava e bebia latinha de Skol (escondido é claro _ foi com ela que experimentei pela primeira vez o cigarro e o sal e limão na borda da latinha de cerveja).

Alguns anos mais tarde fiquei sabendo que o irmãozinho de Rose não era irmãozinho dela, era seu filho. Um menino de 1 ano de idade, lindo!!!

Rose era tudo o que eu queria ser. Bonita, magra, popular e divertida.

Mamãe implicava com nossa amizade. Várias vezes me deu bronca quando chegava em casa (vindo de seu trabalho na escola como professora) e não me encontrava porque eu estava passeando com a Rose.

Muitas vezes “matei aula” para ir com minha amiga passear no porto geral. Lá, eu ficava cuidando os guardinhas enquanto ela só de calcinha tomava banho no rio… O perigo era divertido.

Um dia mamãe chegou em casa muito brava e me colocou de castigo. Eu cantava no coral do GENIC e ela não me deixou ir ao ensaio. Antes de ir para a escola, me levou para a casa de vovó Lucinda e recomendou que minha avó não me deixasse colocar “o nariz na janela”.

Fiquei chorando na sala. Vovó fechou a porta quando mamãe saiu e sentou-se em minha frente, esfregando as mãos ainda molhadas no vestido de desbotado.

_ Mamãe é preconceituosa, vó! A mãe da Rose vive falando pra ela que eu sou a amizade certa para ela, mas mamãe acha que ela não é a amizade certa para mim. Rose é legal, ela não ri de minha gordura, ela me defende quando me chamam de gorda. Por que mamãe não gosta dela?

_ Essa Rose que você fala, te defende?

_ Sim. Ela é minha amiga!!!!

_ Que bom Marluci, isso mostra que nem todo mundo tem só lado ruim. Esse é um lado bom dela e eu vou conversar com sua mãe sobre isso.

_ Mas mamãe é ruim, ela acredita no que falam da Rose.

_ É que onde tem fumaça tem fogo.

_ Mas é mentira vó. Só porque a Rose fuma?

_ Tá vendo? Fumaça e fogo!

_ Mas é de cigarro!

_ Cigarro não é do bem.

_ Mas a vovó Alvina ( mãe de meu avô Castro)  fuma, tio Carlinhos também fuma  e mamãe também.

_ É o lado ruim deles.

_ Não entendo. Se mamãe também tem esse lado ruim, por que ela implica com o lado ruim da Rose?

_ Porque atitudes são contagiosas.

Fiquei olhando nos olhos de vovó por um bom tempo e ela me olhou também, nossos olhares se misturaram e a frase dela ficou martelando em minha cabeça…

Dias depois eu disse para vovó

_ Vó, aquilo que a senhora falou pra mim não sai de minha cabeça. Sobre a atitude ser contagiosa… Eu também não posso ser contagiada pela atitude de mamãe de fumar?

Ela parou de lavar a louça veio em minha direção mancando por causa de seu problema na perna. Segurou meu queixo. Levantou meu rosto e me olhou no fundo dos olhos.

__ Se você pensar como martelo, vai tratar todo mundo como se fosse um prego!

(Desde então duas frases se repetem em meu pensamento antes das atitudes que tenho que tomar)

 
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Publicado por em 18 de maio de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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TARUMÃS


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Minha irmã Marcia me contou que mamãe estava triste. Tinha acontecido alguma coisa no serviço de nossa mãe e isso tinha provocado muita dor de cabeça nela, talvez fosse de tanto chorar. Mamãe sempre tinha fortes dores de cabeça.

Fui até o quarto e a encontrei deitada e com uma toalha de rosto dobrada cobrindo seus olhos.

Talvez ela estivesse dormindo.

Fiquei em pé ao seu lado observando a sua respiração. Percebi que ela chorava. Era um choro contido, abafado, escondido…

Arrisquei uma opinião e falei quase num fio de voz:

_ Vai na casa de vovó mãe. Conta pra ela que passa.

Mamãe tirou lentamente a toalha do rosto e ficou me olhando…  Não sei precisar quanto tempo, só me lembro que chorei ao vê-la chorando.

Sentou-se na cama.

_ Você vai comigo?

(óbvio que eu iria)

Consenti com um movimento de cabeça.

Ela levantou, pegou a chave da rural azul e branca , me tomou pela mão e fomos para a casa de vovó Lucinda,

O percurso foi feito em silencio.

Entramos na casa de vovó, e ela estava no tanque de lavar roupas colocado na direção da pequena escada que dava acesso ao quintal e ao seu quartinho de orações.

Vovó parece que sentia minha presença. Ela estava de costas para mim, mas parou o movimento de esfregar a roupa nas ondas da pia de cimento. Tudo ficou suspenso no ar.

Virou-se e me olhou…

_ Vó, vai ajudar mamãe. Deixa que eu lavo a roupa para a senhora.

Ela enxugou as mãos e passou por mim subindo os lances da pequena escada de 4 ou 5 degraus, passou a mão na minha cabeça e me disse:

_ Eu termino meu serviço quando acabar de falar com sua mãe. Vai ser uma conversa de mãe e filha. Fique aqui, o pé de tarumã está cheio, aproveita e vai chupar tarumã. Você gosta.

Sorri para ela. E ela foi pelo corredor mancando. Observei que a ferida na sua perna esquerda envolvida num pedaço de pano, sangrava. Vovó tinha uma ferida feita pelas varizes que estouraram e que não fechava, era um buraco horrível, escuro e arroxeado.

Sentei num dos degraus e fiquei chupando tarumãs…

Sempre fui uma criança curiosa. Não me aguentei e fui passo a passo, como uma felina em caça, tentando aproximar-me para ouvir o que tinha acontecido com mamãe. Ah!!!!!! Se eu descobrisse quem tinha feito mamãe chorar, haveria de conhecer a minha fúria.

Não ouvi a voz de minha mãe, só ouvi vovó dizendo:

_ Quando temos problemas é comum pedir a Deus que ele nos ajude. Mas você tem que ter cuidado com o que pede e como você pede. Se você pedir como Elias pediu, você pode não entender o que Deus vai fazer.

… (Meu santo Jesus!!!! Quem era esse tal de Elias? Será que era ele quem fez mamãe chorar?)

_ Elias tinha medo da rainha que queria mata-lo e ele clamou que Deus o ajudasse e acabasse logo com aquilo. Ele queria se ver livre.

… (Que rainha? De quem vovó estava falando?)

_ Deus mandou um anjo para adormecer Elias e ele não ver o tempo passar e nem acabar com o medo. Mas o pior aconteceu, a rainha acabou mandando cortar a cabeça dele.

… (Meu Deus!!! A tal rainha era uma assassina!!! Coitado do tal Elias)

_ Temos que pedir com paz no coração, sem raiva, sem mágoa, só assim Deus atende com calma também. O medo e a raiva sujam os pedidos da gente. Deus não atende pedidos sujos de sentimentos ruins. Seja humilde ao pedir, dobre seus joelhos, DE JOELHOS NINGUEM TROPEÇA.

Voltei aos tarumãs pensando na rainha e no tal Elias…

Devo ter chupado uma bacia-de-rosto cheia de tarumãs. Quieta… Passando a mão pelos joelhos…

 

 
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Publicado por em 10 de maio de 2019 em MEUS ESCRITOS

 

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